quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Canções à beira do cais

CANÇÃO DE ORFEU

Claro que Orfeu era Eu...
...rídice, claro, você!
Tão clara que se perdeu
Noutro país mais escuro
Onde (no escuro) não lê
Os versos bons que escrevi
Na mão que em vão nos prediz
Um futuro.

Óbvio que fui te buscar
Neste país inseguro
Linda que fiz minha voz
(De até comover o diabo)
Acho que até convenci
Teu amor a me acompanhar

E andamos e andamos e andamos...

Depois, como no mito
Ao qual agora imito
Quando ia tudo ficando
Até um pouco mais claro
Claro mas claro que olhei!
Claro que olhei de soslaio
(Claro que o mês não é maio...)
Tornou que nem uma estátua
Resolutamente imóvel
Que nem uma estátua de sal
Com que (partida em mil
Em mil, em mil pedacinhos
E após recolhê-los solidão)
Tempero agora minha voz
De sede, meu amor
De mar, meu canto
De sal.


SONETO IMPREVISTO

Eu te havia em pouco tempo visto
Duas vezes partir – uma, aos cristais
Outra, de mim cujo olhar feito cais
Assiste agora o teu partir previsto.

Não sei se te acompanho ou só te assisto,
Duas vezes pensei. Uma, demais...
Outra, cristais partindo em mil... ou mais
Que aos pedacinhos, de contar desisto!

Em barco improvisado, às pressas feito
Madeira rústica, origem incerta
Partiu quem de prender não houve jeito.

Da veia escapa o sangue, e não me movo!?
Não... Apenas deixo a ferida aberta
Para quem sabe o possa entrar de novo.


TEMPERO

Dos semáforos escorre
A memória em vermelho:
O beijo?

Ao acenar-te
Caem-me na mão abelhas
Que, fincando o ferrão,
Morrem.

Teu nome, teu nome ubíquo
Em tudo se espalha
Se mistura
Em tudo se dissolve
Teu nome respiro.

Teu nome em minha boca
Sarah...
Em minha língua um gôsto
(Memória beija memória)
Já nem preciso mais
Temperar a comida.


DIAGNÓSTICO

Eu lhe trazia um sentimento assim
Todo em azul, bonito amor, azulíssimo.
Lhe dei, meu bem, as uvas melhores
Lhe trouxe, amor meu, as últimas rosas.
Nenhuma rosa nasceu nunca mais
Uva nenhuma jamais se provou.

Beijavas, em quando, de olhos abertos
Como para conferir o real
Ou tinhas medo de escuro
Dizias não me enxergar direito.
Assim me enxergavas,
Por trás de vidraça em dia de chuva?

Tudo que disse tinha som de azuis?
Tudo que lhe mostrei projetava azuis?
Você, meu bem, cujo olhar azuis amava
Quem diria, deve ter trinatopia...


MÃO DUPLA

Nossa avenida Paulista
Tão nossa a bela avenida!
E vista assim de pertinho
Que bom poder caminhá-la.
De noite, então, que direi?
Melhor se fossemos juntos
Assim sorrir mil assuntos
O espiar nos rostos atento
Nossos olhares acesos
A todas luzes nutrindo
Luzes dos postes, dos carros
Aceso o nosso olhar
Até um luar inventando...
As nossas mãos combinando
Outros maiores segredos
E cada passo sumindo
Noutro surgindo – caminhos
Mas acontece, que coisa!
Seguimos sentidos contrários:
Vai sentido Liberdade.
Eu sentido Consolação...


AZUIS

Agora esconder o amor
Dentro dos óculos escuros.
Direi que é por fotofobia
Dirão que o sol já se pôs
Replicarei, não na China...
Darão-me por conta de louco
Deles um riso terei, um riso
Agudo, de partir o vidro.
Um riso aguado, de inundar
Países inteiros, de hidratar
Os corpos, os sonhos
Um riso dilúvio, riso
Correnteza, rio tristeza
Meu divertimento maior
Meu brincar sozinho
Meu brincar descuido
De quebrar as coisas
De tomar a bronca
Do pai enfezado
De fazer um bico
E num cantinho
Da casa, chorar sozinho.

Agora guardar o carinho
Nos bolsos da calça.
Virão me cumprimentar:
As mãos no bolso presas.
Mulheres a mim as suas
Tolas, virão conceder
As minhas no bolso inúteis...
Darão-me por conta de frio
Ai! Deles arder um incêndio... Um
Gravíssimo! de entortar os vidros.
Um incêndio egoísta, de atiçar
As fogueiras do sonho
Incêndio alastrado, cujo
Fogo, mulher ausente,
Desesperadamente assoprar!
Meu distraimento maior
O assisti-lo sentado
Os olhos vidrados
(partindo, entortando)
Enquanto a mulher, já sem
Fôlego, se afasta, lenta
E desastradamente.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Protagonia do Ator

Eu te amo porque teatro
Te vejo roubar a cena
Aos bípedes vens de quatro
Rolando por toda a arena

Teu número faz a conta
De quantos espectadores
Enquanto a platéia tonta
Arremessa de anéis a flores

Tu beijas as personagens
Com olhos escancarados
Passando-me tais mensagens
De amores mal-confessados

Por ti submeti-me a testes
Fazendo a protagonia
Vencendo mil cafajestes
Até fui morar na coxia

Abram alas para a atriz
Abram olhos para as três
Uma atriz, como se diz
É a verdade a mentira e um talvez

Abram alas para a atriz
Abram olhos para as três
Uma atriz como se diz
De uma cena um aceno era uma vez


Eu teatro porque te amo
Já ontem na grande estréia
Bastava-me um só vexame
Me beijas olhando a platéia

Nas costas levo-te junto
Me atiças se espreguiçando
Me pensas em outro assunto
Nas coxas vais me levando

No grande-final me soca
Seus olhos até que secos
Se toca me troca e se emboca
Noutras bocas noutros becos

Se despe e molhada de luz
Sua roupa de seios quadris
Passeando seus olhos azuis
Pelo povo que claro quer bis

Abram alas para a atriz
Abram olhos para as três
Uma atriz, como se diz
É a verdade a mentira e um talvez

Abram alas para a atriz
Abram olhos para as três
Uma atriz, como se diz
De uma cena um aceno era uma vez



(Canção de uma peça inexistente)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ourives

Meu pai, ê meu pai, poeta maior
Pairas acima de onde já subi
Palavras hábeis, fábeis. Tu, Ourives
De cada verso teu sai um rubi.

Rubi roubei já tantos versos teus
Com os quais muitas mulheres fascino
Que, Ourives, ouvirás tu mais façanhas
Minhas que as de um Don Juan latino...

És mito a quem imito desde quando
Tua paixão, por culpa dela nasci
A tua prosa multi mutilada
Perna que arrancaste de algum saci.

És a personificação do coice
Em cujos lábios de alambique
Tua amada bebe a noite
Inteira (e ainda acorda no pique...)

Pairas acima de onde já subi
E eu busco vida onde tu vives
De cada verso teu sai um rubi
Palavras hábeis, fábeis. Tu, Ourives...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Um riso

Aquela mulher seus olhos um córrego
Tem que a faca machucar as cebolas
Da vida resta pouco um restaurante

Bendita a mulher de tão ser a última
Tem que a vassoura chiar noite após
Da mulher zombam as horas varridas

Aquela mulher parece um naufrágio
Perpetuamente ancorada ao fundo
Do poço Do mar Do passo Do amor?

Aquela mulher seu filho não nasceu
Por nem do espírito santo concessão
Porque a noite resta guardar seu corpo

E os dias restaurante a igreja o dízimo
Aquela mulher dá um baú de preces
Num porão esquecido ninguém ouça

Nunca a mulher chorou tanta cebola
Tem que a faca machucar as cebolas?
Um dia resta a faca o fica ou parte

E ousa a coragem chegar de sofrer
E enfim parte para nem quer saber:
Bendita a mulher não mais aquela...

*..... *......*......*......*

Mas essa mulher é um riso!
Tão descansa numa entre árvores rede
Que a tarde cai bem um riso...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Monólogo

E beija-flor beija o que?
Beija coisíssima alguma!
Não tem lábios para tanto
Nem lábios tem uma flor.

Já eu os tenho demais
E lábios tem meu amor.
Mas acontece que o longe
É um monólogo beijo...

A flor espalha perfumes
Para atiçar-me a saudade
E beija-flor bate as asas
Como quem dá gargalhadas.

Pois eu de birra os imito
E do papel faço a flor
Do lápis, bico de pássaro
Criando beijos-de-conta.

Beijos tais como o do pássaro
Que – cá pra nós – mais picota
Do que propriamente beija,
São só de-conta: paródia.

Eu lábios tenho, pois bem
E os tem demais meu amor.
Mas acontece que é longe
O logo e só monobeijo...

Oconjuntorto

Avidausentèra?
Eramorevés
Eramorompido
Eramoruim
Oconjuntorto
Ocorpouviumpasso
Amortestávida
Omoçousoumtiro
Questúpidocoitado!
Amoçamoutro

E a morte os separe.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Arco

Penso que a falta de riso
Na boca do triste
Será compensada
Por sua caveira sorrível
Gostando da idéia:
Ficar de uma vez
Em estado de graça
Contando vantagens
E o tempo pra se distrair

Dói no corpo do santo
O peso da alma
Qual flor emperrada
Querendo se abrir
Ao abuso de tantos insetos

Produz o sermão
Desconvida as irmãs
Só lhes dá seu desdém
E se vira pro céu

Reza muitas aves
Sem saber voá-las
Asas murchas

Pesa na boca
O beijo encravado

Em verdade digo
Que o pecado
É não cometê-lo

Penso que o beijo do mudo
Tem mais poesia
Que a fala do santo
Pregando paredes eternas
De costas pra vida

Por mais que o sorriso pareça
Alguma fratura exposta de quem
Quebra a cara no amor



(Feita para uma melodia de Eduardo Roncoleta)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tempo

Pensar no milênio
Assusta
Não o alcançarmos

Viver não passa
De um século

Inútil planejar
Pra mais de um ano

A semana
Felina morre
Suas sete vidas

É um estabelecimento aberto
24 horas, o dia
Onde compro o tempo
Sempre fiado

A hora, um sofá
Onde um sexagenário cochila

Mas agora, injusto agora
Que agucei os ouvidos
Não escuto, não escuto
O minuto de silêncio
Nessa hora de luto...

Pois os segundos
Tossem a vida
De um relógio
Com bronquite.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O tédio bocejando

Hoje, escrever é tirar uma foto do tédio bocejando.

*

Diz que silêncio vale ouro. Por que é que então após tantas e tantas caladas, garimpando o teu o meu o nosso silêncio, eu ainda não consegui vender um quilate sequer?

*

Sou um extraordinário vendedor-péssimo. Entre nove concorrentes eu acabaria em décimo.

*

Bom-futuro?! é estarmos imundos, grudentos após um dia de trabalho, ao passo que desejamos tomar aquele banho gostoso, mas a água não vem, não vem...

*

Solidão
é uma moeda à procura
de mão.

*

Expôr aos outros a saudade que se tem é querer mostrar, entusiasmado, um desenho sem tinta, sem marcas no papel, aliás, sem nem mesmo papel.

*

Saudade é querer respirar debaixo d'água.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ou!?

Porque tua ausência é tão abrangente que até parece que nem eu estou aqui...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A quem pediu água

Meu amor tem a tristeza de um cigarro molhado
Cuja brasa ausente foi arder nos meus olhos
Assustadoramente acesos.
Olhos meus em brasa
A tudo o que vejo ferem
Amores que vejo, coisas que vejo;
Onde encosto meu olhar
Queima-se, fere-se
Não dá paz o meu amor
Não dá sossego.
Por isso hoje fechei os olhos por alguns intantes
E apaguei a chama que machuca.
Essa tanta fumaça? Apenas uma saudade
Dos olhos fugindo:
Amanhã não haverá incêndios.
Por isso e por outras águas
Meu amor tem a tristeza de um cigarro molhado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Noturno

Uma palavra cochichou em meu ouvido esquerdo haver
No direito um silêncio que perigosamente suspirando sugeria...
Vibrei com a idéia! virei o rosto e lambi a palavra
Enquanto o silêncio maliciosamente soprava em minha nuca.
Então, virei para o outro lado e respirei o silêncio
Enquanto, humilhada, a palavra (a quem?) tentava tudo explicar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Destinos (à minha maneira)

A mão caleja no trato diário da lida
Porém, num trato, homem pra homem, a mão lida muito bem
Por uma cigana ela pode ser lida

Algumas placas são contra a mão
Nas ruas de mão dupla a que vai dá tchau à que vem e vice-versa
Quando se tornam mão única, único lazer de uma é ter saudade da outra
Pior as de nascença, nunca dão tchau porque jamais deram oi
Uma cigana lê o futuro pelas mãos...

Meu Deus... Onde estará o futuro do maneta?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Soneto do amor piscoso

Amor de águas envolto inútil peixe
Escapas num piscar-de-olhos às iscas
E no entanto despálpebro nem piscas
Mordendo que anzóis um pescador deixe.

Amor de chamas cercado num feixe
Golpeias, cospes em vão suas triscas
Mas quanto mais golpeias mais te arriscas
A um belo chamusco do qual se queixe.

As mãos enfaixadas – amor reclama
Os lábios feridos – amor resmunga
Diz que pôs o coração numa caixa...

Mas vejam-no correndo – alguém lhe chama?
Vai se jogar ao mar – está de sunga?
Trará depois seu corpo a maré baixa?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Andar

Como prender o luar nas mãos?
Como retê-lo se é uma paixão
Que ao tempo não dá
O tempo de ver e saber
Quando a noite será
Companheira ou não?

Tal a noite que fosse uma só
Ou talvez fosse canção
Uma poesia sem dor
Ou como a dor de um adeus

Bem que prendi teu olhar no meu
Pude retê-lo no coração
Mas o tempo não deu
Pra te desvendar
E o mistério de amar
Nesse ritmo
Me enlouqueceu

Quando o luar descansar
Seu brilho e o teu olhar
Descansar seu encanto
Esqueça o nosso pranto
Me dê suas mãos e vem
Andar...

Foi o silêncio quem recolheu
Minhas palavras naquele adeus
Fique bem, fique em paz
Que Deus te proteja, te guarde
Te guie, quem sabe, de volta pra mim

Pra que a noite não fique tão só
Eu acendi o luar
Com o amor que você
Antes de ir deixou pra mim

Quero prender a respiração
Tão ofegante do tempo
Só vou soltá-la depois
Que a gente sumir
Um no outro, surgir
Um do outro, suprir
Todo amor

Quando o luar descansar
Seu brilho e o teu olhar
Descansar seu encanto
Esqueça o nosso pranto
Me dê suas mãos e vem
Andar...

Leandro Henrique/ Fábio Roberto

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nós de Pescador

Eu te dei o meu amor
Pois faça dele o que bem quiser
Não me importa o coração
Que não bata junto ao meu

Emoldure, jogue aos cães
Pode empilhar junto dos demais
Dê um nó de pescador
Pra saudade não soltar

Vou-me embora tarde vou já deu a hora do adeus

Prenda os olhos num varal
Pro sol secar tuas lágrimas
Deixe o vento recolher
Dos teus lábios a paixão

Na ausência de nós dois
A nossa história é de emocionar
Deixe o vento carregar
Pra bem longe todo amor

Vai-te embora cedo esteja deu a hora do adeus

Fábio Roberto/Leandro Henrique

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Flor do Tempo

Quero prender
No teu sentimento
A minha canção
Perder junto ao vento
A respiração
Perder o momento
Na distração
De viver

Quero morder
As tuas palavras
Até machucar
Sangrar um silêncio
Soprar e soprar
E depois de beber
Tua sede, amor
Quero ver nos olhos teus
Amanhecer
A flor do tempo
Toda a se despetalar
Num sopro meu

Ah, meu amor
Deixa o vento escapar
Dos teus suspiros
Da respiração
Ah, meu amor
Já é tempo da flor
Abrir no coração

domingo, 2 de agosto de 2009

Fragmento

As coisas só são antigas e as pessoas só são velhas para quem tem olhos caducos.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sou

As palavras de meu pai na voz de minha mãe.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sono de vidro

Um copo está sempre dormindo. É o que ele pode fazer, dormir. A não ser que um líquido o venha preencher, aí é ele tendo sonhos. Quando a gente bebe, estamos roubando os sonhos do copo. Um copo vazio, sem líquidos é um copo sem fé, sem vida, dormindo seu sono de vidro. Deixar de beber? Não! Apenas mantenha seu copo sempre cheio.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Visão, revisão ou previsão

No futuro as tatuagens serão interativas, terão movimento, piscarão luzes contra um imenso escuro, súbito se apagarão, brincarão de escondesconde quando outros olhos acaso quiserem conhecê-las e e essa brincadeira será excitante, mudarão de cor, terão iniciativa própria. Passarão do braço (estejamos de acordo que seja esse o ponto inicial) para o tórax, lá escorregarão que nem tobogã, farão cócegas na barriga, depois subirão, vão lamber os mamilos, coçarão as orelhas, meterão dedos no nariz.
No futuro as tatuagens farão sexo, basta que haja duas do sexo oposto num mesmo corpo, e se reproduzirão como células. E tomarão conta do corpo inteiro, e mudarão de nome passando a chamar-se pele. Há de haver, haja, apenas um resquício do que hoje conhecemos como pele, uma parcelinha reduzida da epiderme, uma espécie de marca indesejável de nascença, coisinha mais parada e sem graça, viu, a isso chamaremos tatuagem, cujo aspecto somente os mais ousados irão manter e exibir por aí, praias afora.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Haicais

(autocleptomaníaco)

Roubei as minhas próprias
Coisas e as escondi de mim.
Terei culpa, eu vítima?

*

(antipatriótico)

Depois do vento
Todas as bandeiras
Murcharão.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ato

Eu não escrevo poemas
Como quem pensa que os faz
Simultâneo ao atrito
Da caneta com o papel

(a exemplo, esse aqui)
Um poema é tão só
O que sobrevive e escapou
Covardemente da arena
Amorosa e violenta
Em que nos digladiávamos.
No abrigo do papel
Ei-lo a salvo de mim
Ufando alívios.

Olho-o de cima a baixo
Com desprezo
E após inútil provocação
Torno a cuidar só de mim
E assim livre de poemas
Faço planos para a minha morte.

Planejo morrer mas não de amor
De susto, doença ou assassinato.

Como causa de minha morte:
Uma respiração apenas
Uma boa respiração...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Haicai

Minha infância pulava feito gafanhoto
Espetei-a com um alfinete:
Nunca mais tive dez anos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Queda

Têm uma queda pelo chão
Essas árvores apaixonadas?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sono

Agora o sono criou raízes vermelhas no branco dos meus olhos
A ele, cavalo brabo, dentuço e nervoso, sirvo de pasto

Ah, então poderei molhar o bico nas águas do sonho?
Só um gole, quem sabe, um gole de esperança
Quem sabe mais um golinho, e se puder outro
Ah, dê-me cá a garrafa toda, dê-me um galão de litros
Litros, litros, litros de esperança, dê-me tonéis
Não, não mos dê, deixa que os roubo por mim
Beberei, beberei, beberrão, até acordar mijado
Todo, todinho, inteiramente mijado de esperança.

domingo, 19 de julho de 2009

Acidente

Nasceram pessoas no século retrasado. Todas colidiram, colidiram num terrível acidente... Não houve sobreviventes.

sábado, 18 de julho de 2009

Eutanásia

Eu aqui
Lá fora o guarda-noturno
As casas vigia
As casas que não se mexem
Salvo haja terremoto

Salvo?
Sim
Por enquanto esteja a salvo
O único tremor que se escute
Seja o do seu estômago
Matutando a comida

Eu aqui
Enfermeiro de plantão
Vigio o sono do silêncio
O silêncio que não se mexe
O silêncio que é uma palavra paraplégica
Acidendata, moribunda, toda hematomada, engessada
Pobre palavra
Que já não mexe, não mexe comigo
O silêncio apenas respira.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Espanto

Fui acender a palavra
Achando que era um cigarro
Quando acabei de fumá-la
Estava quieto, apenas quieto.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Nítido

Apenas não adormeci
Mas minha cama adormeceu por mim
Está lá, quietinha, parada
Esfregando no chão seu sono de pano

Tudo adormeceu ao meu redor
As paredes dormiram em pé
O teto pendurou-se feito um morcego e esqueceu-se de voar
A rua lá fora ronca seus pneus no asfalto roçando
Ronca, ronca sua pneumonia angustiada
Meus sonhos vadiaram a madrugada fuçando latas de lixo
Pensando-se recicláveis
Que ficassem por lá, que se tivessem reciclado
Mas já adormeceram também

Apenas eu não adormeci
Mas minha esperança adormeceu por mim
Está lá, quietinha, imóvel na cama sonolenta
Derramando na fronha suas babas de sonho.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Espelho mágico

Já me preocupo com meu filho:
Onde estará a essa hora?
Por que não liga para avisar que só vai chegar mais tarde?
Anda tão distante ultimamente...
Meu filho, pobre filhinho
Que ainda nem nasceu.

Quanta vida estás perdendo
Meu filhinho
Quanto crescimento estás não tendo
E no entanto te agigantas contra os mitos
És maior que tantos deuses
Porque existirás, eles não
E morrerás depois por teres nascido

Já me preocupo com tua velhice
Meu filho
Me preocupo porque darás tanta preocupação ao meu neto
Assim como eu a ti, meu pai a mim e meu avô ao meu pai
Mas nascemos
E é tanta vida que eu já nem lembro do contrário

Mas só por isso me preocupo contigo, meu filhinho
Porque ainda nem nasceste
E é só assim nesse estado de não-nascido
Que não te posso proteger.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Nem estou com fome
Mas a fruta vermelha.

Apanho-a, examino-a-me
Não estou com fome
Apenas sozinho.

Mordo, engulo.
Já não estou só.

domingo, 12 de julho de 2009

Teto

Saio mais uma vez para comprar o pão. A manhã deve estar linda, nem vou saber. Tenho que olhar para baixo a fim de me desviar dessas múltiplas e caninas fezes, não posso correr esse risco, meu sapato novo, ora bem. Haverá um sol lá no alto, admito, mas faz tempo o ignoro, meus olhos fotofóbicos não o suportam, minha sombra que com ele se comunique. Não me importa saber se há ou não nuvens. Se chovesse, não teria saído, simples. O chão não está molhado, então saí.
Sujeito vindo na direção contrária, creio que todos estão na contramão, eu para onde vou é frente. Não me interessa o rosto dele, retrato falado. O que espero das pessoas são os seus passos indo embora, alivio-me apenas em saber que continuarão vivas. Ou se mortas, não sou ou serei desses que espiam o caixão curiosos, contento-me em saber que estão paradas e não me podem fazer mal algum. Me dá um certo prazer apenas pensar que estão vivas. A maior dor dos mortos é não poderem morrer de novo.
Vou comprar o pão. Não faço caso de conhecer as mãos que o fizeram, contanto que tenha mãos e sempre limpas, faça-o. Não digo olá, não acredito em olá. Entro na padaria, pego a comanda da mão que me a oferece, deve ter um rosto, deixe-o lá, eu é que não vou levar na memória nenhuma dessas caretas, não passam de ridículas caretas. Diz-me bom dia, não lhe retribuo as palavras, aliás nem as tomaria para mim, bom ou mau, irrelevante, não seria mais razoável desejar apenas dia? Que você tenha um dia, ou, mais um dia. E só. Palavras dos outros... Dispenso. Como esses vizinhos inconvenientes que esguicham a calçada justamente no momento em que estou passando. Malditos! Meu silêncio: capa impermeável.
Próximo. Ah, bem, já é minha vez. Primeiras palavras do dia e últimas: 10 pães. O atendente não me dá bom dia, nem olá, apenas entrega o saco de pães. Assim, mais fácil, vou logo embora, tudo é menos doloroso sem palavras. Vejam essas pessoas puxando assunto, como se prendem, como se dão nós por pensamentos, como se oferecem indignamente feito animais no cio. E por sinal, elas nunca se entendem mesmo de verdade, é sempre um falar inútil contra um balançar de cabeça submisso, depois vice-versa apenas invertendo os papéis. Encenação. Como esses falsos amantes que sempre fingem um orgasmo simultâneo ao que o parceiro goza loucamente, ora, balela, os relógios nunca que se acertam, coisa rara a simultânea, e além do mais, como saber? Sexo, melhor coisa que há, porque sem palavras, pelo menos com as putas. Tudo de que precisamos, alguns poucos números. 10 pães. 100 reais? O sentimento é sempre enganoso.
Pago, o dinheiro está contado, odeio troco. Esse dinheiro não é meu, não me pertence, não o quero, vejam esses imbecis aí recebendo o troco felizes como quem recebe esmola.
Voltar para casa. Já não preciso olhar para baixo, estudei o percurso, decorei as fezes, pela cor, tamanho, forma, algumas esculturais quase me fizeram rir por me lembrar outra coisa. Olho em frente, nunca para cima. Uma olhadela ou outra para baixo, nunca se sabe, acaso outros novos cachorros tenham defecado novas bostas. O meu sapato novo.
Dentro de casa mais uma vez, largo o pão em cima da mesa, nem estava com fome, tampouco estarei logo mais. Deito no sofá mais uma vez, olho para cima só mais uma vez. Teto.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Palavra autêntica

Com suas combinações infinitas de partículas fonéticas, presas uma à outra, cada qual dessas partículas, por uma espécie de fio invisível a que chamamos sentido ou significado, vemos surgir diante de nossos olhos e ouvidos curiosamente extasiados, milhares de palavras: a todas elas chamamos Palavra.
Mas que encantamento, que surpresa, que espanto! não deverá ter a própria palavra Palavra quando acaso repara em si, toda cheia de seu próprio significado.
Todas as palavras olham-se entre si e se estranham e se esbarram, apenas convivendo. Indiferente a todas as outras, Palavra é uma palavra que se olha no espelho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Vento, brisa e sopro

Dois pulmões apenas tenho
Só que além da própria
Que é já por si uma violenta respiração
Ainda outra alheia sorvo

É tua, eu sei, essa respiração confusa
Desencontradamente intensa
Que chega a mim
Como se de muito longe viesse

Longe
A princípio ventando forte
Mas quanto mais próxima
Nem quase uma brisa

E, ambiciono,
Quando assim bem pertinho
Quem sabe
Quem sabe um sopro?

domingo, 28 de junho de 2009

Semáforo com direito a metáforas

Se verdes os teus olhos
Feito um sinal
Verde ao semáforo
Definitivamente aceso
Como posso
Não avançar?

Só teus lábios, cautelosos
Piscam vermelho
Rubro sinal
Diante do qual aguardo
Em ponto morto

Rude sinal
Exigindo PARE!
Não ultrapasse
A multas sujeito
Perigo causar acidentes


Rubras pétalas
Exalando o tempo
Como que feridas
De infinita sede
Porém coágulo

Mas avanço nervosamente
Touro atiçado
Por escarlates panos
Olé! dribla uma...
Meu beijo ventando em torno dos teus lábios
Olé! finta outra...
Louco animal só por teimosia vivo
Cujos olhos-noite
Nos teus quisera amanhecê-los

Teus lábios
Esconderijos do tempo
Apenas futuram o amor
E os teus olhos
Feito um fruto verdes
Ainda por amadurecer.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Átropos

Quando escrevo parece
Cortam meus cabelos
E essas palavras nada mais são
Do que suas sobras espalhadas
Para o canto da barbearia varridas.

Ao fim, calvo-me ao espelho.

Quando o cabelo de novo
Crescer
Inspiração é a hora de velho
Cortá-lo?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A flor dos vergéis

Meu caro, por que ouves somente e tudo cala?
E por que olhas, louco, apenas a que não te olha?
Ah!... Que árvore aos ventos do outono não desfolha?
Qual coração aos golpes do amor não se abala?

Sim, bons tempos, em que a coragem não fugia!
Parava qual beija-flor ao vergel que exala.
Triste escravo, por que te escondes na senzala
Se dada já lhe foi a carta de alforria?

Crucificado...

Não reclamam tuas mãos varadas em pregos?
Andas a pé na contramão de uma avenida
E os carros sem freios e os motoristas cegos...

Anda! Larga teu medo os pregos os porquês
Oferece, em amor, antes que não mais vida
Junto aos teus versos o mais lindo dos buquês.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Poema cavado, ainda sujo de terra

E a impressão é de que tendo todos ido embora
Acabássemos de chegar, meu bom amigo
Como se nem tivéssemos estado ali
Durante toda aquela festa.

Eras tu o aniversariante
E te cumprimentavam, não mãos
Mas luvas
E te abraçavam, não corpos
Mas roupas.

Noutro lugar, expectantes
Ao abrigo do frio e do tempo
Nem fazias aniversário
Não envelhecias
Sequer havias nascido
Eu tampouco;
Não expostos mesmo à alegria
Que os dentes estraga
Zombávamos deles desprovidos de som.

As criaturas despedintes comovidas
Ignoravam que estávamos
Apenas por chegar.

A quem cumprimentavam
Simpáticas e prestativas, não sei:
Algum impostor, (qui)mera representação.
Estávamos por chegar.

Mas de repente
Numa espécie de tranco às avessas
Partes mutiladas de nossos corpos se recompondo:
Primeiro as mãos para o restante juntar
Raras, preciosas coisas e assim desconhecidas
Depois braços, tórax, pés e... o ombro
Ombroamigo! no qual todo pândego me apóio;
Por último os olhos, do duplo vão obscuro brotando
Com que nos reconhecemos
Mais uma vez
Estranhamente nascidos,
Como existentes.

sábado, 20 de junho de 2009

De Trás pra Frente

Se a vida fosse o contrário
A gente nascendo idoso
Ficando aos poucos mais jovem
Seria bem mais gostoso

No fim a gente voltava
Em vez de céu ou inferno
Pra onde nunca se esteve
No lindo ventre materno

Lá dentro a gente chorava
A tristeza perdida
Baixinho a gente cantava
A canção proibida
Lá fora o monstro acabava
Guardando a mordida
A morte só nos olhava
De longe, rendida

Se a vida fosse o contrário
Descompletávamos bodas
Como arrancássemos pétalas
Até sumirem-se todas

Nossa paixão mal andava
Já das rotinas obesa
Porém nos olhos a lâmpada
A cada olhar mais acesa

A gente então se assustava
Com tanta vontade
E a cada beijo jogava
Um punhado de idade
A mão do tempo bagunçava
Nossa identidade
E enquanto a gente brincava
A saudade dormia

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sem o -e-

Isto quando o silêncio
Deles o riso costura
Como se um-e-um
Eliminando -e- barreiras
Amalgamassem

Um-e-um
Onde amem
Sem o -e-
Amam
Vê-se
Umum

sábado, 13 de junho de 2009

Curtíssimo

A capa e a contra-capa dos livros muito grandes
Sentem uma da outra saudades.
Por que tão longe? perguntam-se.
Todo conteúdo de livro se resume a um invejoso
Que nada mais tem a fazer do que separá-las.

O livro perfeito deverá ter apenas uma página
Contendo nela frente-e-verso
Um único e definitivo poema
Curtíssimo.

Fechado o livro é como se elas dormissem tão abraçadinhas.
Aberto são elas um pouquinho longe
E o poema exposto é o que elas têm saudade.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Presente de pobre ao dia dos namorados

Ao dia dos namorados
Não reclamem, meus amores
Se em poesia é o meu presente
A economia das flores

Por estes tempos de pobre
Perdoem-me a rima rude
Mas se esta vos incomoda
A incomodada que mude

Pois nunca se sabe ao certo
Quem é a verdadeira, amores
Mas em beijo é o meu presente
A economia das flores

Deixo em paz a flor que dorme
E ao fundo do mar as pérolas
Quem o amor dá não colares
Quem o beijo dá não pétalas

Assim sumam-se as mulheres
Economizando as dores
Eu somente e a verdadeira
Viveremos só de amores

Ao dia dos namorados
Não reclamem tanto, amores
Se em poesia é o meu presente
A economia das flores.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Do silêncio

O silêncio... parece até que engole
Suas palavras. Mas como é indigesta
Essa comida! E tanto as quer, faminto
O meu coração. O teu silêncio, fim de festa.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Saco de pancadas

A vida pratica o seu boxe
Na cara dos que não reagem
Dá soco no queixo, no cóccix
E faz do covarde o seu pajem

Aplica um gancho, encaixa um jab
E o cara no meio do ringue
Às tontas quase não percebe
Que a platéia toda lhe xingue

A vida aplica o último soco
O sujeito cai, tão murchocho
Parece até um dorminhoco
Banguela, feio e de olho roxo

Ah, seu sofrimento foi longo
(Vermelho a cor do seu esmalte)
Juiz acena e soa o gongo
E a vida ganha por nocaute.

Canto de Mais Amor

A vento vim te contar
Ouvinte seja você
Avante vá seu amor
Amor um seu vale cem
Amor do seu fale bem
Quem muito sabe, não diz
Defeitos quase não vê
O amor nada tem a ver
O amor tudo bem a dar

A pronto vim te contar
Aprende logo você
Se prantos der seu amor
Dor um amor não há sem
Amor sem dor já não tem
Quem foge cedo demais
Avisos muito não lê
De pouco serve correr
Sem ter onde descansar

E muito já te contei
Bem sei chegou de contar
Viver não serve de ouvir
Viver não cabe falar
De amor o seu vá cobrir
Amor um seu vale mil
E muito vou repetir
Praquele que não ouviu
Amor do seu vá cuidar

domingo, 31 de maio de 2009

Anti-pulgas

Mulher descende da pulga
E o homem dos cães. Sem troça...
Não falo como quem julga
Falo como quem se coça!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O mar

Vi que o mar não tem memória
Como a têm os elefantes:
Sobre o seu dorso gigantes
Navios passam com notória
Violência! E... dentro de instantes
Sequer um rastro como antes
Fica pra contar história.

Esquece de quem o ataca
O mar, beijando o inimigo
De quem sofrera perigo
Há pouco em ponta de faca?
Sem memória?! Contradigo...
Dói-lhe tanto o tempo antigo
Que a dor do recente é fraca.

No fundo é que coleciona
Tão tristes recordações
Naufrágios de amor: galeões
Que nunca voltam à tona.
Perdido o olho de Camões
Conta um por um os milhões
De objetos sem dono ou dona.

Tudo isso só pra mostrar
Ao meu pai, que já se esquece
De tudo que lhe acontece
Um minuto após passar:
Cada um tem a espécie
De memória que merece.
A minha é de elefante.
Tua memória é de mar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ontem

Procuro a boca
Que ontem me chama
O silêncio parece
Nem estar aqui

Algumas pernas descansam
Imóveis
No cimento ou fotografia

Mas ninguém não me ouve
E o tempo escapa de quem
Amanhã eu estava morto

Ontem, lá estou.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Do quase dono

Podem tirar quase tudo de mim
Minha vida ou a esperança de... até minha ira!
Mas minha morte não, ninguém tira
Sou dono ao menos de meu próprio fim.

domingo, 24 de maio de 2009

Confissão às aurículas

Já mudei o meu discurso
Não por ser vira-casaca
Mas cansei de bancar o urso
Que a todas feroz ataca

Do jeito que ia o percurso
Iam me pôr numa maca
Não achei melhor recurso
Do que fechar a matraca

Sim! o amor é mesmo lindo
Dessa praga não escapo
À minha tragédia brindo
Pois bem, já mudei o papo

Com coisas sérias eu brinco?
Pois agora eu lavo a louça
Filhos eu quero ter cinco
E que aqui meu bem me ouça:

Se nestas curvas derrapo
Choro feito o acidentado
Teu beijo é um esparadrapo
Meus lábios um machucado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A morto

Indelével, pensavas
Hoje pouco se vê
Não beijos emergem
De um já morto

Todas as palavras
Circundam o corpo
A fome como bichos
Por um já morto

Alguém passa, olha
O corpo um não amor
Mata mais um pouco

O nunca está sentado
Na boca sem outra
Inexequível a morto.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Soneto do amor antes

Tão logo o sol mergulhe a noite escura
E à tarde escape um último suspiro
Te percebo vindo ao longe e me admiro
Por ver o grande amor em miniatura

E assim como arde a lua uma fissura
Toda a perseguir a Terra em seu giro
Eu te desejo como o ar que respiro
Sem o qual esmoreço de tontura

Antes que o sol volte pela manhã
Se acaso te encontro dormindo ainda
Sussurro-te aos ouvidos sou teu fã

Protejo teu sono, assisto, acompanho
Mas se acordar... te acho muito mais linda!

Suspira fundo e perde o sono. Eu ganho.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Desaforismo

É o próximo número! O mágico segura a cartola, como de praxe, ao contrário.
Suspense.
A platéia, pelos números anteriores dominada, esfaima.
Ele denuncia o interior da cartola. Comprovado: vazia.
Oh! Sabe-se lá como ele vai tirar dali dois coelhos. Sim, dois! é o que repetem os boatos saltando de orelha em orelha na platéia.
Cochichos.
É a hora! Mete a mão lá dentro. A mão mexeriqueia durante um looongo minuto.
Mas nenhum. Nenhum coelho sequer...

Conclusão: eu acho que estou tão ausente quanto os coelhos, tão vazio quanto a cartola, tão sem graça quanto o mágico e decepcionado mais que o público.

Saldo

Saudade vai deduzindo
Assim contando nos dedos
Mais os juros e prometos
O saldo dos prejuízos

Além dos danos morais
Põe no cálculo o desuso
Esse o fator X: deixado
De lado o amor enferruja

Feita a soma em semi-dó
Aponta o lápis e o dedo
Confere tudo de novo

E a saudade vem cobrar
(Mas que descara é a sua!)
O que ela mesmo me deve.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A poesia do instante

O galo ganhou um relógio de natal.

Barulho de sombras se empurrapurrando
Armam o espetáculo da noite.

A flor vadia se esticaaaando
Põe um bicho danado a rodeá-la.

A vigésima flor gostava de sentir os narizes se debruçando.
Depois todos preferiam mesmo era o pegavento.
Esse – mas tonteava – deixava escapar o vento.
Mal cabiam nos olhos da gente os exageros desse ceuzinhozão
Tão cima de tudo, de Deus embaixo só.
Deus dormindo virado prum lado era tudo podendo existir.
Aí se Ele se virava pro outro alguma coisa sumia, faltava.

Os velhos, os velhos chupam a noite por um canudo
Que só se assim pra se aceitar toda essa roncadura feia.
Bonito é coçar com o dedo a barriga da lua que ri
Respingando na gente pedacinhos úmidos de sua tristeza.

Tristeza mesmo foi a do pescador distraído
Que a seu barco viu um dia partir sem ele
E seu triste olhar já das águas íntimo
Sua volta por anos a fio perscrutou.

O jornal sendo lavado com a louça da cozinha.
A cozinheira gorda pôs o dedo sujo nos olhos do homenzinho
E saiu correndo riririndo alto, demônia.
O tatu lá fora sempre fugindo de alguma prisão.
Deixei meus olhos tristes pendurados no varal.

Metade do que eu falo é saliva.

Moldura

Assim que as poses se fixam
Querendo reter o momento para sempre
Eu me despeço
Antes que o facho de luz
Me a tristeza congele.

E quando o um-olho-fechado nos diz
– Olha o passarinho... Olha o passarinho...
Todos me olham que já voei
Para onde o chão não é feito de cimento
Que ainda fresco, acaso me prenda.

Never

Neve eu nunca vi. Mas já vi olhares
Brancos gélidos abaixos de zero
E um amor de iceberg ainda espero
Descongelar extravasando mares

Tudo em nada nunca vi. Mas já vi
Água tornar em vapor ou em gelo
Vapor? é uma paixão em descabelo
E gelo... é só uma água que sorri

Água em estado de fotografia
Cujo negativo é um olhar triste
Captado por câmera vazia

Meu olhar – câmera vazia – insiste
Em captar o momento de agonia
Quando o olhar da dor ao adeus assiste.



(Inspirado por um poema intitulado Neve de Fábio Roberto)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sonho

Na velha mesma árvore as velhas flores mesmas
Além dessa mesmice uma flor roxo-prata
Vão-se os tempos, ensimesmadas lentas lesmas
Mas só eu pairo o olhar na bela flor novata

A mesma pálpebra indômita foge ao sono
Da morte... e mesmo a morte inevitável tomba
Tombam as folhas da velha árvore de outono
E nos céus da utopia a velha branca pomba

No turbilhão da paisagem multicor dormes
Viscosa feito criança recém parida
Apenas eu como bom teimoso te colho

E te cobiço inteira com olhos enormes
Desproporcionais, maiores que a própria vida.
Então enrolo-te em pálpebras e fecho o olho.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Térmico

Para manter bem quentinho
O amor agora há pouco feito
Revesti meu coração
Com paredes de vidro
Por alumínio reforçadas
Como garrafa térmica
Assim o bebo que nem café
Horas depois de você ter ido embora

Depois em torno dele
Coloco blocos de isopor
E dentro pedras de gelo
Para tornar ainda mais gelado
Mais que fria nevasca
O teu amor por mim
Assim o bebo que nem cerveja
Dias depois de você ter ido embora

Meu coração já deu
Uma safra de uvas fresquinhas
Que por teus pés pisoteadas
Resultaram no vinho
Nosso amor envelhecido
Cuja lembrança
(Em temperatura ambiente)
Tomei com gosto ainda hoje
Meses depois de você ter ido embora.

sábado, 25 de abril de 2009

Gengiva

Deus deu a alegria a quem não tinha dentes que por não tê-los ficou tristíssimo pois achava que não tinha onde pendurá-la. Esquecera de que bem podia prendê-la nos olhos.
A quem os tinha Ele ordenou que os rangesse de hora em hora para assim gastar aos poucos a áspera tristeza do mundo sobeja, mas esse aí em vez disso exibiu-os às hienas que o imitaram e mostrou a língua a Deus abocanhando a alegria do outro. Não teve mais do que uma leve congestão de tanto gargalhar mas no dia seguinte já estava cem por cento arreganhando os dentes e incitando os outros a fazerem o mesmo.
Criou-se um motim e todos sorriram ironicamente contra Deus que enfezado e fulo e contrariado praguejou nos condenando à odontologia eterna.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Fuligem

Amor? fábrica vazia
Em cujas chaminés
Se concentra
Toda a fuligem
Do que o coração
Em combustão
Ainda fabrica
(Em segredo)

Após falso expediente
O coração se tranca
No quarto mais escuro
Do peito
E ali já não bate
Dorme empedernido
Mas logo depois
Acorda esmurrando
Espancando as paredes
Quer sair

Mas pra onde?

Se manca, coração
Há nada lá fora
Mais que o perigo
De uma mão
Que ao te colher
Te arranca
E joga fora.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Curió

Minha voz um passarinho
Já voou muitas canções
Hoje as asas meu carinho
Já não batem corações

Teu silêncio uma gaiola
Não prendeu a minha voz
E nas cordas da viola
Pousam tristes curiós

Meu amor um passarinho
Já pousou em tuas mãos
Hoje as asas meu carinho
Já não batem corações

Teu silêncio uma arapuca
Não apanhou meu desejo
Que hoje pousa e se machuca
Nos arames de outro beijo

terça-feira, 14 de abril de 2009

Creio mundo

Mesmo que o mundo esteja assim caduco
Mesmo que esteja a um estado de coma
Por muito que do amor não sinta o aroma
Por mais do amor não se aprecie o suco

Creio mundo e esta dor ninguém me a toma
E mesmo que ao mundo me chamem louco
Sendo ainda um passo entre mil tão pouco
Creio mundo se de a um passo outro soma

Meu mundo o feio mundo o meio mundo
Um quase mudo sempre imundo e sempre
Emenda e nunca amando e não responde

Meu mundo está de cama mas no fundo
Ainda é mundo e ao lamentar-se lembre
Entre ir vivendo se não no mundo onde?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Sui generis

Acaba de passar por mim um sujeito. Não foi por outro motivo senão esse que um calafrio me perpassou a espinha dorsal como lâmina fria, dessas de açougueiro e malcheirosa. Só pode ser um bandido porque passou devagar me encarando nessa rua deserta onde me perdi e além do mais é magro.
Nem vi anoitecer... Maior o perigo. Já está lá na frente, quase o perco, mas ainda o vejo em miniatura, deu o tempo de tomar-lhe o encalço. Alcancei-o quase, mas ele meticulosamente se afasta. Ambos já sabemos, ele é um bandido, eu serei a vítima, mas ele perversamente disfarça.
Apertou o passo, devo imitar, não quero contrariá-lo. Olha pra trás uma vez por outra, acho que pra conferir, cada vez mais me assusto.
Agora disparou ameaçadoramente, seus passos como uma gargalhada galopante, já me desespero, temo por minha vida, aonde estará me levando?
Entrou numa viela, obedeci. No interior da viela, ninguém, cadê o meu bandido, lá está ele lavando cinicamente as mãos, o rosto nas águas turvas de uma torneira, ouso perguntar-lhe com voz respeitosa mas trêmula o que ele quer de mim. Ele me ordena aos gritos um socorro, já entendi o que ele quer, quer escândalo, grito, pânico; meu Deus! é um maníaco, acato-lhe a insana condição, grito-lhe socorros, ele diabo de satisfeito saiu correndo, eu vou atrás. Passo por uma desconfiada cabeça pra fora um terço da janela do imperceptível casebre, discretamente configuro um olhar cúmplice e suplicante, se notou bem, chamará a polícia que me livrará logo do sequestro, isso se ele ou ela tiver telefone.
Corre o bandido, meu sangue corre com medo dele, da faca, do projétil. Já vi tudo... A rua por onde agora se enfiou é sem saída, ele nem viu a placa, planejou tudo e quiçá tem tudo de cór.
Lá está ele de costas pra mim equilibrando o muro na ponta do nariz. Me arrasto a passos de velho, não haverá outra hora para implorar minha vida, começo a soluçar, tiro do pulso o relógio, do bolso a carteira, exibo fotos das queridas esposa e filha, proponho que leve tudo mas me deixe ir embora, a minha vida pela frente, senhor bandido, mas você é tão frio e surdo, sequer parece me escutar, mas de repente começou a balbuciar nervosamente como se a boca cheia de pão orasse coisa mais sinistra que mantra às avessas, me esfacelo aos prantos e me jogo ao chão agarrando seus joelhos, e arre! a violência estava ali o tempo todo, nos joelhos, me esperando, e eu, ironia, ajoelhado. Ele então me judia, me golpeia, me xinga, xinga de novo, toma desgraçado, tomo, apanho, se eu soubesse antes que a violência estava nos joelhos... Vou morrer, eu sabia. Eu sabia que era um bandido.

sábado, 28 de março de 2009

Exigência

Quero mulher
Que saiba lavar
Não as roupas
Mas a cara
Quando me notar
Já desconfiado
Saiba lavar a cara
Cara a cara
Após sujá-la
Nas noites
Nos becos
Das bocas

Quero mulher
Que saiba passar
Não as roupas
Mas o tempo
Quando me notar
Já um tanto velho
Saiba passar o tempo
Comigo enfim
Após gastá-lo
Nas noites
À toa
De baco

Sem roupas
Que lavar ou passar
Lave a cara e
Passe o tempo
Comigo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Soneto bocejante

Não durmo nem com remédios pretarja
Me coço mesmo sem sarna e te arranho
Te roço e me grunhas com voz de fanha
Mas se te esmago a pétala me esparges...

Me esparges... mesmo sendo verboçal
Me olhas com cara de poucos domingos
Te bebo de uma vez e não aos pingos
Te mordo esmiuçando a pètalabial

Então acordas louca e já te despes
Rasgando a pele toda com as unhas
Selvagentil me atacas como vespas

Logo o coma da cama me espandonga
De manhã tu vês tevês já eu sonhos
Enquanto ronco assistes pernalonga.

quarta-feira, 25 de março de 2009

25 de Março

Não disfarço
Se eu pudesse
O teu amarrar
No meu cadarço

Teamarravame
Que na marra
Tu me amavas
E se turrona
Fugir tentasses
A cada tranco
Tombavas

Mas tu
Andas só
Descalça...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Memórias

Minha memória incompleta
Não me lembra ter nascido
Só teus olhos de poeta
E os do obstetra escolhido
Fazem singular registro
De tal momento sinistro

Minha memória de araque
Não registrou distraída
Gesto de maior destaque
E importância em minha vida
Minha mãe suportar nove
Longos meses... me comove...

Minha memória fajuta
Não percebeu nem um terço
Das fraldas cada permuta
Dos cuidados junto ao berço
Dos sacrifícios sem pausa
Sofridos por minha causa

Maior tristeza a do filho
Perder tais cenas dormindo
Não ter direito a estribilho
E ao fim do filme assistir
(Bem acordado) seus pais
Partindo para jamais...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Artecídio

Executaram a música
Assim de um modo tão rude
Que ao dia na praça pública
Comparecer eu não pude

Puseram caixas de som
Um poste sim, outro não
Pra transmitir tal loucura
Fuzilamento, caixão

A saraivada de tiros
Esfuracou a coitada
Estraçalhou seus pulmões
Babavam na arquibancada

Ali também poesia
Maior tortura há sofrido
Primeiro a língua cortada
Depois um olho extraído

Assim caolha observava
Tudo por uma luneta
Até que um braço amputado
Forjou-lhe a alcunha maneta

Jamais se viu tal cenário
Tão recoberto de rubro
E enquanto a turba se despe
Eu de vergonha me cubro

Autopsiaram a música
Além das cordas vocais
Venderam todos seus órgãos
Aos traficantes locais

Seu corpo foi rejeitado
Por mesmo até um abutre
De um corpo tão judiado
Sequer um verme se nutre

Ficou lelé poesia
Tratada de esquizofrênica
Seus gestos são até hoje
Usados pela arte cênica

Minha tristeza maior
Até que um pouco metódica
Por não ter sido tão forte
Encharca as horas na vodca

Da arte o que restou pegaram
Enfiaram dentro de um cubo
Só de lembrar tal evento
As mil lágrimas derrubo

Vê-la espremendo-se aos cantos
Daquilo que chamam vídeo
As mil lágrimas eu bebo
O derradeiro artecídio

Depois sendo esquartejada
Tornou-se a maior manchete
Passan’ de cá pra acolá
Do cinco pro canal sete

Dos canais direto ao esgoto
Em cujas águas de merda
A arte repousa (s)em paz
Multi meretriste lerda.

domingo, 15 de março de 2009

Bíblico

Mas estarão tão remotos os controles do mundo
A ponto de cometeres tal despropósito
Importunar a Deus tentando demovê-Lo de Seu descanso
Eterno
Por Ele e para Ele estabelecido com bons motivos
Garanto
Após o desastre irreparável daquele sexto e trágico dia
Em que por acidente, imprevisto ou descuido mesmo
(Talvez uma beleza de mulher passando o distraísse
Impedindo-o de cometer tal dislate
Tivessem elas sido criadas antes)
Fez o ato do qual conquanto lembre se arrependerá
Com ênfase nesses dias de confissão religiosa
Em que é comum tal prática, arrepender-se dos pecados
Já consumados e consumidos pela gula desvairada
No caso Dele, eis, a criação do homem,
E queres tu importuná-lo com preces e petitórios
Só para passar da tela a programação que te desagrada?

Mas que falta de fé!
Ordena a este programa
Passa daqui para acolá!
E nada vos será impossível.

Mas o aparelho televisivo é surdo...

Ora, mas que falta de pé!
Levanta-te e anda!

Como diria Adão

Viva! o bichinho do amor
Na maçã teus segredos
Não como nem ouso saber

Perdi a fome não tinha
O amor: um bichinho
Na maçã me ofereceste

A maçã envenenada
Porém, melhor
A maçã em vez de nada

Não ou como?
Como! diria Adão...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Incomunicáveis

Audenével o artijunto
Todos os paglabartos sebuam
Nas cadabas da numeta.

Antiparsa, a torga de seres
Serenumados bebe o siluto
A enternemida não sébua.

Adesos, ruvenejam aziras
E os urganomíopes excratas
Logo tudo rumpejam.

Válios de letras espalhados
Pelos humertos inumaverdos.
Nunca a jopeira foi tão rástia.

Entrelos, comídios restam
Da unertícia quase válpeda da boca
Cheia de rastigas inúteis.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Vício

O amor nos deu o tempo de um cigarro
Junto ao qual ardemos feito mormaço
As bocas ocupando o mesmo espaço
Uma na outra as cordas vocais amarro.

Dou-lhe um nó na garganta só de sarro
Para o amor nos dar o tempo de um maço
E o abraço nos apertar feito um laço
E o adeus substituir-se por um pigarro.

Porque nossa paixão nos pega fogo
O amor dará o tempo do enfisema.
Só mais um pito, vai... Eis nosso jogo.

Meu amor faz do teu vício uma algema.
Só mais unzinho, vai... Acende logo!
Que a dor me dá o tempo de um poema.

terça-feira, 3 de março de 2009

Artes de Luciana

Luciana vez em vez torna-se a Atriz. A Atriz por sua vez sempre torna a ser Luciana. Bom é ter as duas, o problema é nunca saber quem é quem ou quem começou quem...
Luciana é algo que acontece quando a gente menos espera. É uma flor nascendo do palco. Um passo andando sozinho sem que o corpo tenha com isso.
Luciana é o fim de minha tristeza. É um sentimento que se distribui com um jeitinho de manhã. Uma alegria que eu não participo.
Luciana é um gesto flutuante sem carona de mão que me alcança. Cutuca teimosa, deve estar querendo mostrar coisa. Viro-me e sopro-lhe na face, ela se desfaz e se dilui no ar, parece brincar, tecendo qualquer coisa que sustenta minha alegria por uma légua de vida.
Luciana feita de ar, feita de arte...
Luciana é uma criação genial da Atriz. Eu já o desconfiava... Tão linda que só poderia ter sido inventada mesmo.
Eu finjo Luciana existir, até participo da sua brincadeira, Luciana é bom demais para não ser mentira.
Além do que, é bonito falar Luciana! É gostoso falar Luciana! É tão bom que eu nem quero mais parar de falar Luciana... Luciana... Luciana...

*

BRINCADEIRAS

Irmã, em meus sonhos és ainda
A criança de muitas brincadeiras
Lembras? E como não!? Que fase linda
Essa das felicidades verdadeiras

Tu que me ensinastes a chorar
Assustando em plena noite fria
Eram medonhas estórias de ninar
Se mais velho o mesmo faria
(confesso...)

Tu me ensinastes o contentamento
Em tua vida, teu canto de atriz
Ai de mim que fui tão inatento

Ao luzente amor que de ti parte
Mas hoje em condições de apendiz
Posso ver: tua vida é a própria arte!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Jus

Não cabem mais no travesseiro meus sonhos por ti.
Minha esperança como uma lâmpada há dias deixada acesa
Cujo apagar veio hoje enfim por desgaste.
Meu altíssimo amigo para na ponta dos pés trocá-la.

Nos meus olhos, desperdício, uma teimosa goteira
Ei-la vinculada ao exagero da conta de água este mês
Cujo ter que pagá-la (me) venceu ontem quinto dia inútil.
Minha professoríssima amiga para em seus olhos desaguá-la.

Já mudei o prumo da rosa
De um jardim a mais murchinha
Antes reumática e corcunda
Logo esbelta e vertical
Por só contágios de meu olhar
Malicioso radioativo
A centígrados pulsante
Mas não mudo o rumo da prosa.

Escrevo saudades, delas escravo.
Sempre ao nome fazem jus
Semprenunca Julianas
Vestidas contra meus olhos nus.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Anúncio

Estou vendendo minha dignidade, honestidade, honra, esperança, bons princípios a preços baixíssimos, mais baixos que o palavrão mais chulo ou o ato mais depravado.
Depois de amanhã serei só ridículo, darei vexames, farei papelões muitos. Não importa. Escrúpulos já não terei.
Amanhã direi que uma puta vale mais do que muitas mulheres gratuitas.
Que eu morra cuspido e vaiado. Hoje prefiro um real do que uma verdade. Cinquenta centavos do que quaisquer meias verdades.
Ah... Aprende logo, criança tola! A mentira é mais aconchegante do que o colo da mãe.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A sempre Leila

Um avião levou-me a dúvida
A que nunca dissolveram meus óculos.

No entanto teu aceno balançar
Pra lá e cá, finges vai embora.
Entras no avião, choramos.
Por um momento a impressão
De que deveras vai-te embora.

Até o avião parece voar.
Olha indo! Vai sumindo o avião!
Todos acreditam ausentar-te.
Mas segredo! Continuas aqui.

Que manobra não sei faz,
Do avião a Leila escapa
E vem ter conosco, sorri.
Acho não sabe ir embora.

Para dar o parecer realístico
Inventamos até uns bilhetes.
Ninguém sabe fabulamos.

A Leila sempre está aqui
Entretanto, dia ou outro
Ela faz no entre-aspas a volta
Contando os países que visitou
As pessoas que conheceu.

Que habilidades não sei tem
Até os detalhes a Leila diz!

Noites há que uma infância me visita
Dizendo as tristezas que tinha
As perdas que passou e eu vejo
Uma criança não entender
A dúvida embaçar seus óculos
Escorrer, deslizar pela face
Por que? por que? por que?

Mas um avião levou-lhe a dúvida
A que nunca dissolveram seus óculos.

A Leila sempre estará aqui.
Por não esteja, está.
A sempre Leila em mim.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Por Tanto e Sempre

Deu do amor por não par
Entre olhares a nuvem
Deu longe um caminho
Lá o amor vai não vem

Vai por ser tanto e sempre
Sem prever tempo ruim
E sempre não volta mais
Sem presa foi-se de mim

Olha, não esquece o amor
Por ser tanto e sempre
Lembre, feito uma flor
Um perfume nos lembre

Deu do amor passarinho
E voando pra nunca
Deu de não voltar

Fosse ao céu ir voando
Fosse um inferno pejar
Eu te andaria o amor
Lado a lado, me lembre

Deu-se uma dor para cada
Ao saber tudo ausente
Deu longe um passado
Meu amor, vai na frente

Vai por ser tanto e sempre
Sem predizer o seu fim
E sempre não acabou
Sem pressa anda por mim

Olha, não esquece o amor
Por ser tanto e sempre, lembre

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O cachorrinho

Desço do metrô
Adiantam-se os tremulantes passageiros
Distante eu atentava aos contos aventureiros
Que narrara o meu avô

Situo-me a leste
Outros, cegos e desorientados procuram a sombra da vida
Que possa lhes cobrir a nudez sincera, ela tida
Como voraz peste

As longas escadas percorro
Como o ponteiro sóbrio e crucial que vara o segundo
Degrau findo, ferem-se os olhos, pois que jogado ao mundo
Mancando está um pobre cachorro

Lambe a pata
Ensangüentada. Perguntam, acaso meteu-se com uma gangue
De cães? Indiferente ao que o indaga volve a conter o sangue
Atitude sensata

O sangue não tarda
Jorra e como as chuvas torrenciais desespera e cai
E foge. Como o pó ao cimo da ampulheta se esvai
Aos poucos a vida bastarda

Ai! a dor dilacera
E eu converso com ele e o amo. Fecho meus olhos e oro
Ele tudo espera do meu nada. Eu fico e me demoro
De um anjo-enfermeiro à espera

Pois aparece
Uma alma boa, esplendente como o sol. Chega junto
Observa e se apressa a socorrer. Parece entender do assunto
Continuo em prece

Em seu colo ela o envolve
Estanca o sangue, ata sua ferida e põe-se a chamar o táxi branco
Rumando ao veterinário e salvando o cachorrinho manco
A situação se resolve

E eu me ponho a vagar
Grato pela alma caridosa e sábia. Ah! Um dia ainda estudo
A ciência e a arte do amparo. Por enquanto daqui eu ajudo
Em meu simples ato de amar
.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Apólogo

Tempos difíceis esses nossos tempos verbais
Não há entre nadas concordância

Ponha-se placa bem grande assim ó
PROIBIDO PISAR NA GRAMÁTICA

O que esses aí
Fizeram
Não é reforma ortográfica
É prosopopéia.

Escondesconde

Mulher, ah... e com que gôsto...
Se quer brincar eu brinco.
Tapo bem o meu rosto.
Conto até dez. Dez?? Cinco!
Cinco só: sou ansioso.
Que jogo perigoso...
E se eu te surpreender
Bem no meio da fuga
Qual lerda tartaruga
Nem ousando correr?
Ah... não sei o que faço:
Se afoito eu te rasgo
As roupas num abraço...
Se de beijos me engasgo...
Se em teu corpo me afogo...
Não sei. Que eu saiba logo.

Mas ô, mulher, cadê?
Meses faz que procuro.
Cismo, cismo: você
Se escondeu no futuro?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Elegia absurda

Que som tem o brilho dos olhos
Quando os crepitamos assim de alegria
Embora sem um estalido sequer?
E as sombras que persegues irritado
Nas tuas matinais brincadeiras
Ó cãozinho esparramão
Serão assim tão barulhentas?

Tua surdez
O silêncio armou um toldo
Sob o qual te proteges
De nossas pluviosas palavras.
As nossas vozes de tristeza encharcadas
Jamais molharão tua impermeável serenidade.

Não sei a quantos decibéis acima do suportável
A morte passará por aqui
Com seu carro de alto-falante ridiculamente escandaloso
Rasgando com sua voz de lâmina nossos melhores pensamentos.
Mas não se preocupe, cãozinho.
Tua surdez...
Não sentirás nem ouvirás nada.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Mergulho

Parece até que vai de ré
O homem contra a maré
Buscando a lua que sumiu
Do seu altar ontem se viu
A despencar a mil no mar

E por não ter tempo a perder
O homem pôs-se a fazer
Uma canoa de remar
Dizendo vou por meu amor
Atrás da lua ao mar

Ventos lá fizessem bem
Que a dor em mim
Da lua em vez
Caísse enfim

O amor quiçá fique por lá
Sem lua a noite não dá
Ou foi o brilho do olhar
Que mergulhou a fenecer
Nas dobras desse mar?

Nuvens nem cobrissem mais
Quanta nudez
O céu propõe
Ao nosso amor

Um dia mais longe do cais
Será que volta jamais
Ou traz a lua em seu olhar?
Será que a dor não esqueceu
Também jogar-se ao mar?



(Para um melodia sinuosa do saxofonista Eduardo Roncoleta)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há Mar no Amor

Olha céu o sol que arde
Olha chão água não há
Morte e vida se confundem
Sol não queima a esperança

Dessa grande família
Nasce outro rebento
Chega pra vidamorte
Brilham olhos os pais

Batizado nas lágrimas
Choram olhos os pais
É mais um retirante
É mais um pra chorar

Cresce logo rebento
E aprende lição
Água só mesmo em bocas
Beijos de amor

Beija lagos rebento
Beija e fica no amor
Fica que é só no amor
Que morte não há

Seca não há
Água está
No amor

Morte não há
Vida está
No amor

Olha céu e quer voar
Olha chão quer descansar
Dia raia asas pesam
Noite sonha oceano

Com cavalos marinhos
Sonha quer cavalgar
Atravessa e levanta
As poeiras do mar

Rompe o dia acorda
Vai rebento caleja
Passam anos encontra
Uma linda rebenta

Beija logo rebento
Se aprendeu lição
Água só mesmo em bocas
Beijos de amor

Beija lagos rebento
Beija e fica no amor
Fica que é só no amor
Que morte não há

Seca não há
Água está
No amor

Morte não há
Vida está
No amor



(Feita para uma preciosa melodia da atriz e pianista Luciana Catarina)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Veredas

Deus quando vier
Que venha armado
E tome junto das cachaças
Muitas doses de cuidado

Ai, se alguém quiser
Que Ele apareça
É pra ver rodopiar pior
No chão Sua cabeça

Ai, se Deus puder
Guarde o pescoço
Em cima Dele pula a prole
Deus nem sobra pro almoço

Deus quando vier
Que venha rico
Pague as contas, pague o pato
Mas segure bem o bico

Ai, se alguém souber
Da santa grana
Logo acabam num minuto
O que custou-Lhe a semana

Ai, se alguém puder
Guarde um pedaço
Junto Dele gruda a chusma
Deus nem fica pro abraço

Deus quando vier
Empunhe cetro
Vista auréola e coroa
E recupere cada metro

Ai, se alguém pedir
A Sua queda
Deusdenhosos derrubá-Lo-ão
Por menos que moeda

Ai, vão aplaudir
De camarote
Junto Dele gruda a renca
Deus arranca no pinote

Deus quando vier
Que venha logo



(Musicado por Luciana Catarina para uma peça teatral de sua autoria)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Distância

Na noite um só grilo
Martela a parede
De meus dois ouvidos

Na noite os sapatos
Quase sempre pisam
Algumas formigas

Negras como a rua
Que se confundiram
Com a noite escura

Ao longo da rua
A que foi pisada
Pelos dois sapatos

De alguém que partiu
Quase sempre ficam
As marcas dos pés

Mesmo que distante
O teu amor teima
Em doer de perto



(Musicado por Fábio Roberto tornou-se um lindoido blues-baião)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Qualquer dia desses

Qualquer dia desses a gente se casa
E vai morar naquela casinha branca
Ao cimo dum monte cheio de lírios
Cheio de pés de uva – pra gente não colher

Não colher, pois juntos, lá, temos todos os abraços
E tempo nenhum que lembre jardim
Temos todos os carinhos e nenhum
Porque o próximo carinho é sempre o primeiro

Mas esta tarde sentada na beira da encosta
Teu passar assisto ir nosso amor contigo
Nunca nos vimos e hoje pode o melhor dia
Ser de nossas vidas: o de amor primeiro

Qualquer dia desses, hoje não
Hoje a gente se olha de longe
Empresta um sorriso e passa
De amor, qualquer dia desses...

Dialética

A mulher fala fala fala... Em resposta eu lhe proponho maliciosamente pensamentos lógicos irrespondíveis, armo dialéticas intransponíveis, argumentações irresistíveis, e ela ingenuamente corresponde, cai nas armadilhas, presa fácil, depois fica fula e me acusa disso-aquilo.
E no entanto após tão hábeis lábias eu fracasso com qualquer argumento quando ela desiste de falar.
Não há argumentação possível contra os lábios silenciosos de uma mulher.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Desejo

Desejo a todos um natal e um ano novo. Menos a você, mulher ausente. Não te desejo um natal nem um ano novo. Apenas te desejo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

S e p a r a ç ã o

Tristeza que vem a gente se fala
Vou dar passo até me perder de nós
Vontade deixar um carinho a mais
Pois sei não lhe vai faltar solidão

Mas fique a valer nesta noite a dor
Quiser sucumbir à saudade enfim
Favor nos procure naquele olhar
Que dor retrasada a gente perdeu

Pode ficar com este quarto em vão
Pois quarto sem dois é conta sem fio
Dou-lhe meu terço, não me adiantou
Sequer um segundo pôde atrasar

Eu bem lhe confio as noites sem nós
Tão logo eu me for e a saudade atrás
Já nem lhe pergunto ou perdi tal voz
Tampouco te esqueço – amanhã talvez.



(Musicado por Fábio Roberto)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Conspícuo

Poesia pega, ô se pega. É transmissível a beijos devassos. A olhares maliciosos. Não passa na Sessão da Tarde. Poesia não é popular. É risco de vida.
Tatuagem... Baboseira. Tatuagem só dana a pele. Superfície. Não pega dentro. Poesia fere dentro, abala dentro. Tinta de tatuagem as veias não coletam, coração não bebe tinta de tatuagem. Coração engasgaria com tinta de tatuagem.
Não fizeram ainda de um homem tatuado um outdoor ambulante? Tatuagem é poluição visual? Gente feia é poluição visual ou a feiúra é só liberdade de expressão?
Dá pra fazer tatuagem no olho? Se não der, valia não vejo.
Olho é de onde brota o amor. Olho no olho dá arrepios, veias bagunçadas amarram-se uma à outra, ar engarrafamento no pulmão, suores enchentes na pele, o amor é muito movimento.
Tatuagem é foto? Feto morto afogado em formol? É pause na pele? Quem aperta o play pra que tatuagem evolua, dê sequência ao amor? É possível tatuar o vento na pele? O vento coágulo?
Nosso amor enforcado, suicida desgraçado. Tatuagem paralítica.

(...)

A tatuagem se mexeu
Eu vi...

Eu que vivi
Apóstolo pregando
Eternidades
Eu que vivi
Apóstolo pregado
Por saudades
Após tolos momentos
Estatuí tatuagens
Dilapidei lápides
Lá pedi

Duas sacanagens
A minha e a sua

A tatuagem se mexeu
Eu vi...
Fez piruetas
Deu cambalhotas
Me fez caretas
Tão idiotas
Que eu ri...
Tarado o vento
Ver veio
Excitou-se com
Deu giros em torno
Bagunçou-lhe os cabelos
Subtraiu-lhe as roupas
Eu vi...

A tatuagem
Das cores despida
Escandalizou-se.
A tatuagem ficou
Tímida...

Por isso
Está tua tatuagem
Estátua
Estatuagem
Tão tímida...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Flor de plástico

– Tristeza é isto, você vai abre a janela, não sai...
Vovozim balançando seu lenço, adeusdando uns insetos que zumbiam da sua solidão, eu nunca me esqueço essas palavras ele dizer.
– E hoje é um século depois de mim...
Vovozim falava essas coisas mordendo cada palavra, mastigava, depois engolia e ficava quieto.
Entrei no quarto, gêmeos encaravam-se? Um, no espelho, fingia obedecer. O outro, do lado de fora, pensava-se o autêntico como se manejasse um fantoche; mas o fantoche era quem mandava mais, foi o que pensei, caçoando pensamentos dele.
Vovozim até parecia pentear os escassos fios de cabelo, mas eu sempre soube, ele não queria pôr em pé sabe lá que topete ou franja ele imaginasse, mas sim, os seus pensamentozinhos, que tombavam mais que ele próprio da cadeira balançosa, quando diluía-se a vida num cochilo. Eu o via muitas vezes empatinhando, forçando a vista ao chão, imaginava-o devendo pensar coisas como onde foi que eu deixei aquela idéia? Ele nunca sabia onde havia posto dentadura, óculos, eu sabia, ele tentava mesmo era aparecer sua lucidez, que a toda hora sumia.
Mas nas horas tinas, que inteligência! Que força a sua argumentação mover pedras de pensamentos quaisquer! Advogados com seus mil parágrafos e retórica, acadêmicos, padres, sobretudo os padres, eram esmagados por sua poderosa eloquência, de convencer a Deus não se acreditar na própria Suexistência.
A velhice é um ovo que se bota ao contrário, pela boca da gente entrando, maior do que a goela. Lá fica, entalada entre a faringe e o esôfago, até chocar o bicho das asas a batê-las estouvadamente no peito da gente. Tristeza. É isto... Você vai abre a boca, não sai.
Querer ele não queria, mas a Mãe preparou tudo com tanta argúcia, sem dar a ninguém chance de voto, que ele somente consentiu. A mãe ninguém podia contra, ela falou que ia ter a festa.
A faxina levou consigo a minha infância, naquele dia; a meu avô, trouxe-lhe a sua de volta. De manhã a bruxa não pega na vassoura. Mãe e as tias limpavam, esfregavam suas culpas com panos úmidos, torciam no balde os seus sonhos. Mãe sempre sonhou Europa, sonho dela, acomodava-o só ao travesseiro, tanto, que a fronha embebida de ilusão cheirava a saudade. Esperança de velho tem cheiro de fósforo queimado.
A casa enfeitou-se como nunca mais, deu de dar gente dos pés das plantações saindo, tamanha a beleza que à curiosidade geral fez o convite. Boi das pastagens verdosas veio só pra olhar e muar perto da gente. Cachorros auavam um do outro correndo atrás, trazendo seus donos e danos. Estorvaram dentilmente nossas cercas, fazendo com que os animais vizinhos se misturassem aos nossos – foi a festa. Pássaros, jamais os tínhamos reparado tal como agora, cobriam o rosto, com as asas tapando do sol os raios que forçavam passagem no olho. E as crianças pondo pele na frente de roupa acanhavam em redor dos abacateiros qualquer adulto mais próximo que, como previsto, logo corria aos berros, elas ganhavam as distâncias reproduzindo o sermão em voz fanhosa, desalegando as culpas nele pronunciadas, tudo tão legal, não se repete.
Sinos na mão de Mãe! cheiro de comida, pula o cão antes da pulga. Almoço. E os priminhos. Criança com outra se descasca da pele dos pais. Mas não os meus dentes para esta tola risada, não! Maltratavam Vovozim, sentado à mesa, cabisalto, sonolerdo, faziam-lhe triscas, feito moscas mordiscando rondejantes, Mãe e tias repreendiam, masmases. Mandante o primo Cló barafustava, rezava ao contrário, padres benziam o que o cujo malzia com águas náufragas:
– Seu velho capenga! Ô migalho! Remela nos meus olhos! Velho molusco!
Ele chichava.
A raiva a gente pega filhote pra criar. Dele eu peguei logo duas. Uma do injusto, a outra só por companhia da primeira. Vovozim nem reagia, feito busto-de-general em monumento de praça, a máscara talhada da coragem pós-guerra, mas alvejado inerme ridículo por fleumas pbombas.
Ele comia, entre longos hiatos, garfava indecisão às papas de que não se podia distinguir o feijão do bife, tudo triturado junto formava uma bolota só, resistível.
Então, heroifiquei-me, salvador da pétrea, bombeiro bom beirando abismos de morte. Tive a idéia, após Vovozim sofrer terrível acesso de tosse cujo estrago nos remetia ao já tradicional estouro de fogos artificiais ao fim do ano, com exceção das cores e beleza. Cheguei-me dele perto e a todos solenizei:
– Como vêem, Vovozim não passa muito bem, ou, se passa, não passa muito além de uma semana. (As faces escandalizadas) Pois agora mesmo vou levá-lo de encontro à sua boa morte e, chegando lá, perguntar a respeito da minha. Quem vem atrás, morre junto...
E botei olhar no Cló que virou os olhos contra a parede, medo primeiro, fi-lo sentir, ah, e com que gosto! Vovozim sorriu múltiplas alegrias, tomei-lhe a mão, e o infinito que por detrás da porta escancarava-me um novo mundo fez imã no coração, saímos.
Para o celeiro. Os cavalos, apetrechados, a carroça, tudo de que precisaríamos já estava, não sei sob que ordens, pronto. Estranhei, não mais do que o cavalo por minha estranheza, me olhando como quem ué!? Lembrei-me das caseiras coisas, Vovozim afirmou tudo inútil, mas delas precisei.
Tornei à casa, Mãe me vendo botou tristeza nos olhos por meio de lágrimas, apertou uma raiva de mim torcendo a ponta da saia, depois largou e me abraçou com a força do pai que eu deveria ser um dia. Afastei o corpo para poder lhe falar:
– Mãe, vou por honras de meu-avô-teu-pai. Prometo voltar no tempo de meu filho para condecorá-la avó, o mais alto posto que a senhora minha mãe há de ocupar!
– Filho meu, de onde é que você tirou este doido linguajar, hein?
No que eu respondi:
– Veio junto de minha boca, Mãe, não tirei de lugar nenhum, por isso não tenho onde pôr de volta, a não ser que a senhora, não querendo ouvir, obrigue-me a jogá-lo de volta no meu silêncio lindo-limbo!
– Pois faça isso, meu filho, põe zíper nessa matraca mole, e vá logo chamar teu avô para o banho dele. Por ele, todos esperam. Tio Raú mais tia Nice vieram lá da capital, largaram suas importâncias, o que para ele quer dizer sua empresa, deixada sob a tutela de seu sócio minoritário, sabe o que é isso, meu filho? Para ela, a casa, única coisa que lhe pertence, dona-de-casa é que ela é... Mais, gente de outras partes, seu Olavo, dona Dinha, meus primos Valdeval, Floramante e Dinoco, tanta gente de outros interiores vindo parar nesse interior nosso, longe de tudo, até de si mesmo... E mais, as coleguices viventes próximas que de suas casas se deslocaram, o Zé e sua prole, Lurdinha, Carlotina e...
Se eu fosse mãe de minha mãe, mandava-lhe pôr “zíper nessa matraca mole que eu vou chamar logo meu avô para o banho dele”, mas, por respeito filial que lhe devo, fiquei ouvindo aquela enxurrada de nomes enorme cuja onomasticidade horrível levou-me à condolência por todo aquele a quem se podia apontar e dizer: - Olha ali! É o escrivão do cartório...
Logo notei, vã, qualquer tentativa de convencê-la. Esperei-a se cansar, busquei-lhe um copo cheio d’água e, enquanto ela pendia a cabeça para entornar todo o líquido, subi as escadas num gole sem que ela percebesse, até o meu quarto. Peguei matula, enfiei dentro coisas que pusessem côr às lembranças que a memória teimaria em descolorir durante a viagem, que previ muito longa. Escapei pela janela, para o celeiro.
Vovozim só me olhou com bondade e disse:
– Demorou tanto, mas tanto, que de neto, você quase passa pra bisneto...
Ri tanto da graça quanto um dia viria aprender a chorar da desgraça:
– Adeus para Mãe soou como olá. Só mandou-me vir buscá-lo para o seu banho.
– O banho que tomo não é meu, é dela, você sabe?
– Hã?
– Não é meu o banho.
– Dela?!
– A gente passa a tomar banho, de verdade, é por causa do amor de uma mulher, meu filho, a quem se quer conquistar. O amor, para um velho viúvo como teu avô é uma mulher tão distante que é capaz dela nem ter mais nariz...
– Por isso nem o senhor, nem eu, queremos tomar banho!
– Há! Mas você, por não ter achado ainda o nariz do amor...
– Talvez por nunca tê-lo procurado... Eu nunca tinha pensado em narizes desse jeito!
– Quando o ar faz falta, encontra-se respiração perfeita através dos pulmões da amada mulher!
– Só espero que a minha tenha bonito o nariz.
– Nariz de mulher vem só se não for chamado...
– E de homem, meu velho?
– Não vem, nem quando é chamado.
– Por isso, nariz de meu pai nunca vi?
Vovozim horizontou os lábios. No que falávamos de amor, tocávamos agora na ponta contrária do assunto. Com dificuldades levantou-se e só então pude perceber que estávamos sentados num amontoado de feno. Decretou:
– Pai não é assunto de avô.
– Mas avô, por acaso, não é pai também?
– Não por acaso...
– Pois então!
Com que orgulho e sorriso, meu avô me olhou naquele instante:
– Por palavras assim tão bem conduzidas, me curvo.
– Meu avô, não se curve tanto mais, olha o reumatismo...
– Se eu pudesse olhar, olhava, meu neto, mas não consigo ver minhas costas!
– Assim como eu não consigo ver sozinho meu passado... Meu velho, a gente faz assim. Eu vejo tuas costas e te digo. Você vê meu passado e me diz... Que me diz?
Alguns segundos de silêncio:
– De minhas costas não quero saber agora. Quero saber do que está diante de meus olhos.
– E o que está diante de seus olhos?
– Tudo aquilo que daqui a uma semana não estará.
Desse ponto não pude passar. Baixei os olhos. Pensei na morte, lembrei da vida. Depois, levei-os de volta aos dele, inalteráveis. Ele, firmou contrato com os olhos, deu-me a entender que no momento propício trataria do assunto.
– Teu neto sou, meu avô, com toda a força. Mas não consigo ser tôdo filho, sem saber de meu pai.
– É filho por sua mãe.
– Meio filho, então.
– Meio neto, então, também. Não sabe nada de minha Déia...
– Sei que ela foi o nariz para o que seu amor deu de cheiros.
Gargalhadas dele:
– É... Assim foi...
E após pequena pausa, determinou, com voz mais baixa:
– Logo.
Barulhos fora do celeiro, a eles ficamos bem atentos. Depois, algazarra vindo da casa, e passos cada vez mais próximos, até alguém despontar na cancela. Era o tio Nélio:
– Paizinho, pois é aqui que o senhor tá escondendo da gente a carcaça véia!
– Para ninguém ter o desprazer de vê-la, meu Nelinho!
– Todos o esperam.
– Não mais do que dez minutos. Diga-lhes que já vou.
– Cem anos de idade, meu pai! Cem anos!
E saiu, emocionado com a estatística. Meu avô virou-se para mim, grave:
– Único momento em que já estive de verdade foi um pouquinho antes de nascer. Hoje é só um século depois de mim.
– E depois que nasceu?
– Aconteci dos outros. Vivi por meio dos pais até poder me desprender deles. Depois, agi por influência dos irmãos. De amigos peguei os vícios. Ternura, os animais me exigiram. E o amor: a respiração através dos pulmões de minha Déia! Como vê, tudo me aconteceu dos outros. Momento que eu tive mesmo, só meu, um só: antes de ser concebido. Espero ansiosamente pelo meu segundo momento.
Calei-me, pela segunda vez espantado com algo que meu avô dissera, depois falei:
– Te levo.
Tomei de suas mãos ajudando-o a subir na carroça. Ele só ancorou.
Não mais do que dez minutos. Diga-lhes que já vou. Essas as palavras de meu avô, mestre da retórica. Sem mentir ele sossegava a impaciência alheia enquanto anunciava que ia embora. Diga-lhes que já vou...
Morrer é muita distração... Atento eu vi o ar sonolento espreguiçando raízes no peito de Vovozim de onde enfim brotou a flor definitiva – flor de plástico.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Controle de natalidade

Para algumas mulheres controle de natalidade é gastar menos nas compras de Dezembro.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Moritura

O mais triste da Esperança é que como ela é sempre a última a morrer nenhuma das outras virtudes, nem mesmo a Paciência, vive para assistir seu enterro.

Enigmarães

Três vezes não, senhora. Aposto: que o que tínhamos de amor nem nunca não foi bifurcação... Era encruzilhada cruz e é. Quatro caminhos dela dão. Quatro caminhos sem luz ou fé: trevas-trevo?
Ah, se me atrevo... Pactos com o demo faria... Mas o demo demora...
O demo orar contra mim é reza boa?
Não vem o tolo. Mil vantagens dele: o demo fareja, cão solerte. Sabe que pra vender nem nada não tenho, desalmado que sou. Desalmado que fui: desalmado que souless.
Truão é que sou... Malogrei o riso de Deus. Deus inverte tudo. Tudo inverte deus.
Deus invertebrado...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Manual para um rapaz apaixonado, porém hesitante

MÓDULO BÁSICO - NOÇÕES PRELIMINARES


Pensamento não beija.

*

Beijo é uma palavra que acontece, não que se diz.

*

Se queres só ver o amor: use óculos. Mas se queres não vê-lo, mas vivê-lo: tente ósculos.

*

Que paciência é essa, menino?! Beijo não é pescaria. É jogar-se de uma vez por todas nesse mar!


MODO CLÁSSICO - NOÇÕES PRA TU NÃO ELIMINARES


Alegue sede. E beba direto na fonte.

*

Alague o recôncavo da boca. Babe cachoeiras. O amor é muita enchente...

*

Beijo é uma porção de água cercada de rosto por todos os lados.

*

O amor é quilômetros de saudade reduzidos ao centímetro de um beijo.

*

Um beijo tão espontâneo quanto um acidente no tráfego das palavras...

*

O beijo – prendo-o demoradamente contra ou a favor dos lábios da mulher amada. Proponho movimentos, invento-os, ora violentos, ora mansos. Imprevisíveis... espontâneos... devassos... meigos... leigos mas cheios de sei-quê. Reparo na e deixo-me levar pela forte correnteza que a mulher já enlouquecida não mais contém. Ah, o amor é muita enchente... onde molho minhas mãos, mãos de cego que tateiam, e no tatear, amores tatuam, indeléveis marcas deixando, visíveis somente a olhos (e corpos) nus. Enquanto as mãos despem a mulher amada, desprendo o beijo com delicadeza deixando com que se escorregue à toa pelo corpo. Os seios atentos como dois olhos curiosos de criança espiam o amor com o olhar cínico dos adultos. Umedeço, desço, desço, ah, todo amante é náufrago perdido da mulher amada, na própria mulher encontrado: chegar a nado afoito arfando na península antes esconsa, por mim somente habitada.... Oh! edênica península, de onde nunca desejaria ter saído, porém da qual serei sempre expulso.

*

Quero prender a respiração tão ofegante do tempo. Só vou soltá-la depois que a gente sumir um no outro, surgir um do outro, suprir todo o amor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Descartes

Alguns poetas só deveriam escrever versos brancos: da cor do papel.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Denso

Fiapos da última refeição entre meus dentes ainda não os escovei. Cascas do amor desmilingüido, mastigado mas não engolido. Amor tossido, pigarros de amor eu sofro.
O bafo matinal, ah, e um fortíssimo café amargostoso espante a letargia de meus lábios tão feridos da última guerra, da última refeição.
Molho o pãozinho no whysky, com quem envelheci, ateio-lhe fogo, faço figas, e lanço-o incandescendo garganta abaixo.
Daí, meu coração e estômago, ambos chamuscados, já não sinto fome alguma.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Proverbiais

Sujeito que teve o coito interrompido: coitado.

*

Qual o número de telefone do diz-que-diz?

*

Pátria é uma palavra pétrea.

*

Tudo me leva a crer que estamos na Idade (abaixo da) Média.

*

Quem vê cara não vê moça.

*

Nascem, ultimamente, muito mais chifres do que bois propriamente ditos.

*

Eu não me lembro de ter nascido.

*

Fatalista: se está vivo é porque esqueceu de morrer.

*

Eu não nasci na mesma época da minha certidão. Acho que sou de outra: épica.

*

Mas não são todos uns bandidos esses velhinhos?! Morrer é o maior dos crimes.

*

O maior culpado por tantos divórcios é o casamento.

*

Nunca dê as costas ao amigo. E muito menos ao inimigo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Desvantagem

Para o idoso, todos esses jovens velocíssimos não passam de retardatários.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Play

Se a vida tem pressa, pause-a
Não deixe passar tão rápido
Lépidos sofrem de náusea
E chegam logo na lápide

Esqueça a tecla Forward
Não queira pular capítulo
Quando vir pode ser tarde...
Eu não passei nem do título

Sou mais Dorival Caymmi
Sou bem mais essa preguiça
Fui correr demais feri-me
Já não tenho essa cobiça

Rewind de nada adianta...
Passado não dá ibope
Também não seja tão anta
De apertar a tecla Stop

Falo para quem não sabe
Tudo aquilo que já sei
Se o Pause já não lhe cabe
Apenas aperte o Play.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Desencontro

A mulher dos meus sonhos sumia toda vez que eu acordava. Eu olhava pro lado, lá estava a mulher da minha vida! dormindo, suspirando pelo homem dos seus sonhos.


Tema egípcio

Casamento ou namorico
No fim dá tudo na mesma
O homem faz um burrico
A mulher faz uma lesma

Primeiro juras eternas
Depois é só uma hipótese
Mentira numa das pernas
Tendo-a curta usa prótese

Lesma gruda, burro empaca
No fim dá tudo no mesmo
Mulher se torna uma vaca
Homem (porco) vira torresmo.

O amor nas axilas fede
Quem for esperto perfume-as
O casório nos concede
O aspecto de tristes múmias

Num sarcófago sem lacre
No fundo de alguma tumba
O amor sofreu um massacre
Quem foi que fez a macumba?

Pois ao amor que se frustra
Basta alguém pra que se culpe
Se a tristeza as faces lustra
O rosto a saudade esculpe.



(Daquelas humorezas do tópico "Poemas Brabos")

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Beijo

Dos teu lábios furados todo o amor vazava

Em vão tentamos pôr
Argolas
Piercing
Band-Aid
Mais e mais amor vazava

Em vão tentei costurá-los
Mas agulha outros furos deixava
Mais e mais amor vazava

No chão
O cão lambia todo o amor
E engasgava

Jeito não houve
Todo amor assim desperdiçado?

Resolvi tomá-lo no gargalo feito um bêbado preso à garrafa pela boca
Até a última gota.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Aviso útil

Se for beber, não digira.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Distração

A existência sem amor é como um homem distraído que se esqueceu de respirar.


sábado, 29 de novembro de 2008

Samba na Bituca

Cheia de você
Até a lua hoje está
Cadeia ou você
Prefiro a grade que me dá
Espaço pra pensar
Se eu quero ir ou não

Samba pra você
É batucada de ralé
Garanto pra você
Se por acaso não me der
Um tempo pra sambar
Eu roubo seu relógio

Fica se quiser
No samba tem mulher
Tem violão
Bate se quiser
Aí não dou colher
Do meu perdão

Diz morrer de tédio
Mostra o dedo médio
Diz que vai pra casa da mãe
Dou meu incentivo
Pago o coletivo
Só devolva o troco amanhã

Aí virou o cão
Xingou até tossir
Depois cuspiu no chão
Jurou me perseguir

Lá na botequim
A lua senta pra beber
Nos lábios da mulher
Que pede um samba pra poder
Se esquecer da dor
E repartir amor

Mandam preparar
Pandeiro, flauta, violão
Cadê o bandolim?
Se atrasar, deixar na mão
Só vai poder fumar
O samba na bituca

Meio do refrão
Você de supetão
Atrás de mim
Sobe no balcão
Porrete numa mão
Na outra o gim

Se perdeu juízo
Não perdeu o guizo
Quebra toda decoração
Já de perna mole
Toma mais um gole
Gira o corpo feito pião

Escorregou no vão
Girou até sorrir
Espatifou no chão
Um show de aplaudir



(Feita para um samba de Maurício de Oliveira)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Canção lírica para um grande amor

Meu coração a galope
Atrás desse amor arisco
Toma chuva, enfrenta risco:
Tomara que não ensope...

Ê, meu coração – vitrola...
Gramofone... Toca-disco...
É por esse amor tão prisco
Que a galope cantarola:

– Tu na garupa! Upa... Upa...
Pra ti, mulher, minha dona
Meu coração dá carona!
Upa! Upa! Tu na garupa... –

Quando de amores é cheio
Todo coração batuca
E o quanto bate, machuca:
Foi daí que o samba veio.

Por isso o amor só é bom
Se doer – pois bate e fere
E quanto mais se acelere,
Coração, melhor o som.

Muito embora triste fique
Quando o outro coração nem...
E é aí que ele fica sem
Rumo, sem força, sem pique.

A pulsação fica fraca
O galope, triste lento
E o coração, desatento
Nem galopa mais: empaca.

Aí, coração se aperta
Que nem prego parafuso
Fica preso, tão sem uso
No peito: inútil oferta...

Coração que se apaixona
Acho que nunca se esquece.
E o meu aqui te oferece
Bem mais do que uma carona!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Poética

O poeta é bicho estranho.
Bicho de muitas cabeças
Não sabe com qual pensa
Nem quantas perdeu
Sabe uma lhe resta
Mas diz já não presta

Quer ser bicho de duas cabeças
Quer ser bicho de duas bocas
Boca não sabe ser sozinha

Mais estranho o outro bicho
O que estava de frente
Virou costas andou sumiu

Na outra ponta da língua
Do outro lado outro bicho
Outra cabeça outra boca
Tem asas voou

Boca sem outra pergunta demais
Reclama demais vazia demais
Não sabe ser sozinha

Hoje quem o vê?
E quem o sabe?
Só ele o sabe e sabe
Apenas estar vivo
Não porque respire
Mas porque dói ainda.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Redondilha sonâmbula

Se uma nuvem o céu nubla
Meu olho por vê-la fecha.
Se a voz do povo não dubla
A de Deus sem uma pecha
Exprobro padres e nimbo
Que batam nos Céus carimbo.

Se amor só é bom em dupla
Mas homem só faz lamecha
Faz bem mulher se decupla
Amor sem abrir a brecha.
Dos dez um há que tão limpo
Um deus pareça do Olimpo.

Decerto eu que não o seja
Que a grécias tanto repilo
Quanto padres, nimbo e igreja;
Por só seus nomes cochilo.
E acordo – graças! – na América
Coa voz dos galos histérica.

Cá, tais deuses falam grego
E o boi com seus mitos durma.
Cá, tem Zeus o mesmo emprego
Que Oxalá, com quem não enturma.
Cá, perde o faminto Cronos
A vez pros da Rolex donos.

Cronos, morras tu bem magro
Que aqui seus filhos o comem.
Com muita audácia consagro
Patrimônio – o tempo – do homem.
Morras tu com sua turma
Por cujos mitos boi durma.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Louca Paulicéia

Quando Ibirapuéramos felizes
Quase todos os narizes
Debruçavam-se em Jardins
Quem hoje passa pela 23
É vítima ou freguês
Do vendedor de amendoins
Força! Empurra-empurra
Empurra esta saudade burra
Que anda em marcha-ré
Dá pontapé até a fé a pé
Chegar na Catedral da Sé

Moça chique deu chilique
Tropeçou no aplique
Mas não perde o ônibus
Porque o trânsito se faz de jegue
Em Pacaembú rico segue
De helicóptero
Sobrevoa o estádio
Pobre escuta ao rádio
Gol de placa a la Pelé
Chapéu da época do olé
Na bola a rede até faz cafuné

Lá no marco-zero
Meio-campo é zero
Zera o placar
Zero a zero meia
Noite zero horas
Zera a o placar
Dentro da cidade
Cheiro da saudade
Ou do café
Louca Paulicéia
A minha cidade é

O seu gari as suas ruas limpa
Como quem garimpa
Ruas de aluvião
Mas tudo que ele tem de posse
É muita febre e tosse
Pra lembrar que tem pulmão
Fuma só bituca
Bate bem da cuca
Tem bafo de chaminé
Perequeté no cabaré
Na boca a sede sobe igual maré

Da varanda da Paulista
Vê-se Bela Vista
Onde o sol passeia nu
Parede-meia com Bixiga
Achiropitta briga
Manda todos Anhangabaú
Móocasião de festa
Adoniran contesta
O trem das onze e dez
Mas se não trem não tem revés
No chão batucam bem os nossos pés

Lá mo marco-zero
Solidão é mero
Mero placar
Lero-lero meio
Dia doze horas
Dosa o olhar
Longe da cidade
Cheiro da saudade
Ou do café
Louca Paulicéia
A minha cidade é



(Cronicanção quase uma homenagem a nossa querida cidade)

domingo, 23 de novembro de 2008

Redondilha trágica

Meu cavalo não relincha.
Nunca corre, nem o porte
De outros horses tem. Mas incha
Bem o peito ao ver o corte
Pra lá e pra cá da crina
De uma safadinha eqüina.

Égua – nela forte o bege –
Que meu potro, sem esforço
Tendo as certezas elege
A mais bonita. No dorso
Tanta beleza carrega
Que nem de noite sossega.

De mil cavalos o assédio
Sofre – só do meu exceto –
A tal que mastiga um tédio.
Ele só rumina o afeto
E vigiando trás de cerca
Dela nunca a vista perca.

Não logrou o amor de égua
Com que sonhara meu horse.
Lento galope sem trégua
Pausado em código morse
Que ele tristíssimo trota
Pois a tal sequer o nota.

Mas outra lhe o sinal capta
E em troca toda se empina.
Meu cavalo só se adapta
Por esta nem ser eqüina.
A mula, jumenta ou zebra
Toda de amor se requebra.

Afetos meu bicho engole
E eterno galopa em códigos.
Dentre os filhotes da prole
Um se destaca dos pródigos
Por esbanjar – tu, decifres –
Um belo de um par-de-chifres.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Nuvens

Quem quiser me procurar
Vai ter que revirar as nuvens

O meu sentimento
Tão envelhecido
É um catavento
Já descolorido
Onde o sofrimento
Gira vestido
De vento

Nada me consola
Mais que o som
De uma triste viola
Mesmo fora de tom

Nenhum espelho
Imagens prende
O bom conselho
Não dá-se, vende
Touros vermelhos se matam

Teu sorriso brota
Torto como um J
E feito um anzol
Puxa meu olhar
Que já se afundou
No mar

Toda flor que a mão arranca
Toda dor que não estanca
Tornam-se paixão

Vou bater as asas
Ao invés das botas
Virem-se todos, preciso voar
Por cima das casas
Transparentes rotas
Levo minha flauta
Feito um astronauta
Virem-se todos, eu vou pras nuvens

O meu pensamento
Tão desiludido
É que nem cimento
Já endurecido
Onde até o vento
Pisa despido
De alento

Nada me deprime
Tanto assim
Do que quando meu time
Perde no pebolim

Nem o perigo
Corre a salvo
Todo inimigo
É feio, calvo
Touros covardesverdeiam

Meu olhar desbota
Vira a cambalhota
Lindo feito um cão
Finge que morreu
Mas morto é quem não
Viveu

Toda dor que a mão arranca
Toda flor que não estanca
Tornam-se canção

Vou bater as asas
Ao invés das botas
Virem-se todos, preciso voar
Por cima das casas
Clandestinas rotas
Deixo minha falta
Sombras na ribalta
Virem-se todos, eu vou pras nuvens



(Feita para uma melodia maluca do clarinetista Eduardo Roncoleta)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Impulso

Meu coração por ti pulsa.
Já o teu por mim – repulsa.

domingo, 16 de novembro de 2008

Conclusão

Fim-de-namoro é que nem fim-de-semana: descanso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Reflexo

Para fazer estes poemas?
Nenhum gênio sou
Sou apenas louco
E me olho no espelho!

E se da imagem refletida
Quem me vejo não sou eu
Corro a buscar palavras
A inquirir quem me visita

Mas então qual sou se sou mais?
Se não mais louco multiplico
Mas multiplico loucos?!

O que fazer ademais?
Ah! Deixa a resposta aos gênios
Eu louco apenas...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Do interior

Sou homem do interior
Não sei amar aparência
Não sei amar gritando

E é tanta multidão nesse bar
Que eu nem sei mais
Se estou mesmo por lá
Ou se faria diferença não estar

Mas o que fui lá fazer?
Sou homem do interior
Do interior de mim mesmo
E de mim mesmo não fujo

Mas é tanta multidão
E multi-dá-se tanto
Que ela nem saberá
Se eu também um dia
Morei na sua boca

E quando quis lá ficar
Só mais um pouquinho
Bocas amontoaram-se
E já não coube mais a minha

Fui beijar a boca da rua
Onde todos pisam
Onde todos moram
E engoliu-me a tristeza

Ela não morou em mim
E a conhecê-la não deu o tempo
E não deu o tempo de ser intenso
E o tempo não deu nem pra doer
Deu pra um beijo só – de adeus?

E ao tempo que não se dá
Foi-se qual nômade do amor
Para nunca mais talvez

Sou homem do interior
Do interior de mim mesmo
Não sou homem de adeus
Sou homem de inté...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lacuna bíblica

Eu sempre gostei deste mandamento:

Não desejais a mulher do próximo.

Ou seja, se não há proximidade deste que por contrato detém os direitos conjugais sobre a mulher, logo ele não é teu próximo e sim teu distante, nesse caso, estás liberado para desejá-la e etceteralizar com ela.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Das aparências inúteis

Nunca se crê
em algo, assim,
só porque vê:
não creia em mim.

Sempre se veste
o verbo nu.
O que disseste?
Não creio em tu.

Esteja atento.
Nenhum espelho
é cem por cento,

quase não serve.
Ouça um conselho
e nada observe.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Noturno

Não há escapatória contra
A distância. Dói muito
E mais que a presença.

Mesmo que seja esta
Presença uma violenta
E rude, dói menos.

Quando teus olhos em mim
Eu morto, morta minha dor.
Não há reações visíveis.

Quando olhos só ao espelho
E eu me vejo e quatro paredes
Se fazem perceber uma a uma

E todos os detalhes da casa
Antes ocultos resolvem
Sair de seus esconderijos

Aí já não há escapatória.
Quando teus olhos em mim
Eu não sei detalhes ou paredes.

Não há escapatória contra nada
E a distância é sombra colada
Ao corpo, indefinidamente pesa.

E quando a triste noite em mim
A distância dilui-se nas sombras
De imensos espaços, eu pequeno.

Esta distância que dói tão grande
No corpo às vezes se perde na noite
E ao retornar a manhã, deitamos.

sábado, 8 de novembro de 2008

Haicai

Cada uma...
Cerveja e onda
Sem espuma?!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Soneto do amor adiante

Após, e muito depois... adiante...
Um mais tarde de atraso que não veio
Longe, que tão sendo longe o bastante
De um já é tarde, não funcione freio

O nosso amor, além do que o distante
Dói mais perto que centímetro ou meio
Mais livre que o inexato e tão amante
Parece nem estar, como um passeio

Pra lá de agora, a tanto amor, o nosso
De inatacável ao tempo, a ampulheta
Da morte, vive a um sem tempo de dor


Nosso amor sem tempo, já não o posso
Acompanhar, tão além, que a luneta
Nem alcança – adiante o nosso amor.



Baralho

O amor
Cupim no copas da árvore

Truco! blefo à mulher do outro lado da mesa
Cai! responde-me com desdém
MADEIRA! grita um lenhador
(Cupim no copas da árvore)

MADEIRA...

Caí
Dos teus olhos caí feito lágrima
Enxugaste o rosto, ó, mulher
Com um lenço sujo, ó, doida

MADEIRA!

Caí
De tua cabeça caí feito cabelo
Ficaste careca, ó, mulher
Ficaste careca de mim, ó, doida

Cupim cupim, amor, cupim.

Entrega

Ponho
No meu bolso furado
O sonho
Que tive ao seu lado

Tatuo, mas some
Da pele que trocas,
O meu nome

Menina, que rude!
Meus olhos não são
Bolinhas de gude
Pra jogá-los no vão...

Ponho
No meu bolso furado
O sonho
Que tive ao seu lado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Díspares

Você assopra os incêndios
Eu os assisto sentado
Você namora as vitrines
Eu arrebento as vidraças
Você começa um assunto
Eu corto as unhas do pé
Você comenta as estátuas
Eu falo das piruetas

Você resolve o problema
Eu casaria de novo
Você é de porcelana
Eu tenho mãos de pedreiro

Você confessa os pecados
Eu guardo bem os segredos
Você devolve minh'alma
Eu negocio teu corpo
Você dá bronca nos filhos
Eu lhes daria razão
Você encerra meu caso
Eu abro tua janela

Você me aponta o portão
Eu mostro o céu pra você
Você os olhos mareja
Eu sorriso pra você.



(Com música de Fábio Roberto, por sinal, lindíssima)

Canção de Pedra

As minhas mãos de vento
Teu cabelo de pedra agitam

Por mais acariciado
O teu sentimento
Não sai do lugar



(Com música de Fábio Roberto)

sábado, 1 de novembro de 2008

Trecho

Meus pensamentos têm fluxos e refluxos violentos como um rio bravo. Você sabe, água parada é a piscina do diabo...


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Haicais

Põe ovos o Inverno
Choca-os o Verão – racharam-se.
Pios? Cascas no chão.

*

Da boca do bicho
Corre o riozinho, assustado.
No Verão dá sede.

*

O sapo resSalta
A beleza que nos lagos
Toda nele falta.

*

Oh! melambuzadas
Diabéticas abelhas
Tomam insulina.

*

Bebe a dor e tosse-a.
Vagalume deixa incêndios
Ao sair da Escócia.

*

Eu noto
Que a estética só é estática
Na foto.

*

Não é mentira!
A natureza põe,
O homem tira.

domingo, 26 de outubro de 2008

Ingênuo

Se um beijo me põe de quatro
Dois beijos me põem de oito
Simples beijos – e idolatro
Que faço então pelo coito?!...

Três beijos me põem de doze
E isso rendeu uma idéia:
Dê-me vinte-e-cinco beijos
Que eu faço uma Centopéia!

domingo, 19 de outubro de 2008

Brasa

O nosso amor foi um risco
Um risco para nós dois
Por isso durou o risco
De um fósforo – e depois
(Aceso o cigarro)
Mas só depois de queimar os dedos:
Assôpro...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Prolixidade

Tudo que é muito prolixo vai pro lixo.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Variações

Já que a noite está em fase de crescimento alguém já lhe perguntou o que ela quer ser quando crescer? (Variação de "A noite é uma criança".)

Lacuna bíblica

Quem atira a primeira pedra tem aí seu primeiro pecado e já que não pode mais atirar a primeira pedra, porque só pode atirá-la quem não tem pecado, atira a segunda, a terceira... Acima da centésima é por conta da casa.


Quadrinha

A mulher que não se pinta
tem mais jeito não, senhor!
A beleza é como a tinta
que descasca, perde a cor...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tome nota

O elefante só precisa avançar uma letra para tornar-se elegante.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Dizeres

Se eu morrer em silêncio não ponham palavras na minha boca.

*

O bonde andava tão devagar que ainda não chegou na época do metrô.

*

Touros vermelhos se matam.

*

O pecado é não cometê-lo.

*

Eu tiro o meu chapéu a quem me fizer cafunés.

*

O beijo que não se deu, não o engula nem o cuspa, guarde-o debaixo da língua.

*

A maconha se for legalizada vai se tornar uma chatice como as demais.

*

Pobres têm medo do juízo final. Milionários, do prejuízo final.

*

Pilatos não lavava as mãos antes de comer ou após sair do banheiro.

*

Se virem o dalai-lama correndo por aí podem começar a rezar porque a coisa vai ficar é muito feia.

*

Nasce de súbito morre decúbito.

*

À beira da morte todo mundo pede a nega.

*

Amor estraga se deixar fora da geladeira?

*

Touros avançam no sinal vermelho.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Roteiro de um Funeral

Eu quando o assunto de um funeral
me tornar, eis o roteiro vos dou.

Uma mulher vestida de noite entra no salão. No caixão o produto de sempre.
Sorrateiramente, olha ninguém, fala com ninguém. O mesmo faz o morto.
De nuvem o passo, temesse acordar o cadáver, caminha em direção ao assunto.
Ter certeza. Examina. Veredicto, meia lágrima oferece e perto sussurra:
- O ridículo é saber não. Amas, odeias? Certo me amaste, no menos agias como. Ridículo saber, a substância que te a vida movia, é mais nada que adubo, e a terra te logo mastiga... Melhor saber não. Que haja um Céu, do que a incerteza científica é muito melhor. Que te não esqueçam os Anjos por lá embaixo. Certo, os vermes não esquecerão...

De meia idade uma senhora vestida de mãe, a porta não a quer deixar entrar.
No caixão, o nunca poderia ter acontecido.
Mulher aquela outra se afasta, cautelosamente. Atreve-se ninguém a um sequer movimento.
O salão cheio de ninguém, senhora olha ninguém, fala com ninguém. Quer nunca estar ali.
No caixão, o nunca poderia ter acontecido. Senhora, vestida de mãe, irrompe em lágrimas entrecortadas por palavras:
- Ver nascer filho, felicidade maior inexiste... Ver morrer filho, a desventura inominável... Ver filho, qual banquete exposto intragável... Faminta de suas palavras, gestos, definha até a morte uma mãe, lentamente... Irrevogavelmente deveria ser promulgada uma lei impossibilitando a morte de um filho, antes que a de mãe... Artigo 1º dessa lei, toda mãe teria o direito a morrer antes do filho... Deveria ser impreterivelmente proibida a morte de filho... Filho! Filho! Filho da...

O morto, cuidadoso, evita qualquer gesto que pudesse interrompê-la.
O salão, a mulher e a senhora se abraçam. O morto abraça-se a si mesmo.
A mulher e a senhora, assistindo o assunto, ladeadas, disputam lágrimas. Ninguém vence. Homem vestindo batina entra, cospe palavras, amém.
Esgotados os recursos lacrimais e salivares, todos consultam o relógio, entreolham-se satisfeitos. Minuto depois, retiram-se a receber o cachê. O morto, pudesse, aplaudiria o último espetáculo.

Cáritas

Onde tudo é silêncio
algumas paredes
brincam de solidão.

Outros sentimentos
dormem com o chão.
O chão - nenhum passo.
Os sapatos mudos
debaixo da cama.

A boca estática
palavras dormem
embaixo da língua
morta.

Onde tudo é morte
alguns ossos e um caixão
brincam de silêncio.

Na boca, um gosto
sem palavras os dentes
já não esquecem.

No quase um beijo
teimosas, duas bocas
brincam de longe.

Distante, a ferrugem
da palavra se esconde
onde tudo é ontem.

A moça sem pernas

O meu caminho está sem chão
Onde piso não sei
Não sei se piso
Pois olhos também os perdi
De ver da vida não a beleza
Toda escuridão
Mas se chão não é
Onde calcam meus pés?

Suponho-me de ponta-cabeça
Pois tudo é confuso

Mas então, seria teto
Onde meus pés
E sendo, seria seguro
Mas é nem
E já nem sinto cabeça
Nem ponta, nem meio
Nem ponto que seja final.

Sempre chego ao fim do labirinto
Como, se não andei?
Se não havia chão
Quem andou meu corpo?

Lá, tudo se encontra
E já é manhã, acho
Pois o sol raia ou finge

O sol assusta
E a noite se esconde
Atrás das montanhas

É hora de acordar
Mas não aprendi a voar
Vida não anda
Se chão não veio
O meu caminho chão não tem

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Pensamentos e questões

Aos que pensam que não há mais censura, cuidado! ela deve ter sido censurada...

*

Aos que preferem ouvir isso a ser surdo, não seria melhor se algumas pessoas fossem mudas?

*

Feio é falar de boca vazia.

*

Quem tem mais de 60 deveria ficar vaIDOSO disso.

*

Tédio é o tempo pastando.

*

Quantas sogras um muçulmano aguenta?

*

Quem é vivo sempre aparece, um dia, morto.

*

A bocas fechadas não se olha os dentes.

*

Mentira numa das pernas usa prótese.

*

A verdade dói só se for nos virgens.

*

Sexo é a vaginástica da mulher.

*

O suicida compra passagem só de ida.

*

Um espírita compra passagens de vida e volta.

*

Não há coisa mais falsa do que um Real falsificado.

*

Um real, dez reais, mil reais? A realidade é outra.

*

Atenção! Daqui a mil anos o próximo movimento da estátua.

*

Mãe de médico também prescreve receitas, mas de bolo.

*

Pelo menos a mãe do filho-da-puta ganhava dinheiro honestamente.

*

Sou tão esquecido que não me convidaram para minha festa de aniversário.

*

Um bêbado quando morre a vida fica sóbria dele.

*

Aspas são caspas nos "cabelos" da palavra.

*

Quem vê cara não vê coroa.

*

Os sonhos do cego lhe são transmitidos por uma espécie de rádio?

*

Os sonhos do surdo são filmes mudos?

*

Saudade é um cãozinho cujo dono nunca mais entrou pela porta.

*

Esperança de velho cheira a fósforo queimado.

*

Um cachorro morto que se finge de vivo...

*

O nimistério da saúde se diverte: tevês com imagem de água parada podem transmitir dengue.

Ao desgôsto popular

O caCIC não tinha RG.

*

O vagalume não morreu, só esqueceu de pagar a conta de luz.

*

Provocação: o surdo move os lábios ao mudo que lhe abana as orelhas.

*

Nunca agrade um prisioneiro.

*

Na janela o fumante pendurou uma cortina de fumaça.

*

Se o juiz não for, todos jogadores sentir-lhe-ão a falta.

*

Contra-slogan para uma marca: Campari de beber!

*

Ainda bem que é jejum. Imagina se fosse jejonze?!

*

A letra B é uma letra submissa. Era pra ser a primeira, mas foi só o A mandar, oBdesceu.

*

Deus fez a mulher da costela de Adão e do pomo os travestis.

*

O padre apela ao travesti:
- Se Eva fosse um travesti, Adão jamais poderia ser pai, e você nem eu estaríamos aqui!
E o travesti:
- Se Adão fosse padre, também não estaríamos aqui...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ao gôsto impopular

Professores de literatura gostam de beijos de Língua Portuguesa.

*

O futuro, sempre atrasado.

*

Fica terminantemente proibido o casamento antes do sexo.

*

Quando alguém diz "espero que você volte logo!", está sutilmente te mandando embora já que não se pode voltar a não ser que se tenha ido embora.

*

O emprego do verbo é o único garantido.

*

Os injustos costumam vestir roupas justas.

*

Protestos pacíficos são mosquitinhos zunindo nos ouvidos de um surdo.

*

Campeões e recordistas não morrem, vencem o prazo de validade.

*

Os derrotados perdem por esperar.

Humorezas

O nimistério da saúde se diverte: fumar pode causar danos ao cigarro.

*

Cigarro e café são as causas mais fre quentes do sorriso amarelo.

*

Quem paga a taxa de imortalidade infantil?

*

Talvez as próprias crianças paguem-na juntando suas mesadinhas.

*

Políticos têm cara de taxa.

*

Contra as calorias só uma ducha bem gelada!

*

Frieiras não atingem pés-quentes.

*

Aqueles que comem e falam pouco têm uma arcada sedentária.

*

Hipocondríacos são heróis em defesa dos frascos e comprimidos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ao gôsto popular

Deus não acredita em ateus. Para Ele, estes provavelmente não existam.

*

O vice-versa porque não conseguiu ser o campeão?

*

A mulher do não é a nã?

*

Raspei o chassis da sorte com o que nem mesmo eu a reconheço.

*

Um avião não cai duas vezes no mesmo nem noutro lugar.

*

Em operações aritméticas uma boa calculadora é anestesia.

*

Quem gargalha vomita todo tédio.

*

A ingratidão cospe no prato que comeu. A inveja escarra no prato que o outro pretendia comer.

*

O cigarro morreu de "oxigênio".

*

O último desejo do cigarro era mesmo ser cremado.

*

Pro caipira sua alma é uma "arma". Não que ele seja violento, pelo contrário, já que para ele a calma lhe é "carma".

*

Príncipe é um anfíbio cuja atual escassez de princesas o obriga senão a engolir moscas.

*

Mas os cães ainda insistem em falar Latim?

*

Aliás, Latim é espirrar noutra língua.

*

Se a voz do povo é a voz de Deus, um bando de mímicos fazendo sinais é Deus gesticulando?

*

O ator não dá tchau, acena.

*

Boca de cineasta corta mais que tesoura.

*

Haja Deus para tanta reza.

*

Quites, nem o cego pode ver o que pode o vedor, nem este vê o que o cego não pode.

*

Nunca se aponte para uma verruga na cara de alguém. Pode ser que nasça uma estrela no dedo.

*

Imagine o nojo que as baratas devem ter desses chinelos imundos?!?! Morrer elas vão de um jeito ou de outro, mas por essas Havaianas "baratas"?

*

Beber muita água pode matar. Vide afogados.

*

Quem acende velas ao santo por que já não lhe canta os parabéns?

*

São mesmo de aplaudir essas casas que ainda não têm campainha: - Ô, de casa...

*

Os pés-da-letra hoje em dia têm muito chulé.

*

O lápis é o escravo de quem escreve.

*

Fofoca! faz o gago que vê uma foca pela primeira vez.

*

O pé de Pelé era um pé lépido.

*

Ainda futebol: por que o perna-de-pau não tentou ser pirata?

*

Olhem! O ponto-de-interrogação não é o próprio gancho do pirata?

*

O dia em que Pinóquio pegou cupim...

*

Nas barbas do tempo dormem giletes.

*

Metade do que eu falo é saliva.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

...

O teto salarial dos políticos










Distraído a questões latitudinais dessa sala
balanço numa rede improvisada
assoviando hinos de outros países...











O piso salarial do povo

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Estória decadente

Nunca mais a boa risadinha dele? O rostinho ele tampara com panos de tristeza. Sua boca – travessão sem diálogo, nunca mais soltou palavra. Mais tarde não abriria nem pra comida.
Santos Dumont se suicidara, não era mais tempo de aviõezinhos, os pais não souberam o que fazer.
Trouxeram Palhaço cujo aplique no cabelo beirava os pés do ridículo. Gargalhadas só de vê-lo. Um dos pés enroscava no cabelo que por sua vez puxava a cabeça obediente. Tombando no chão a cabeça fazia plá e com a mão ele fazia que era uma bola de basquete, plá, plá, plá. Sequer um riso. Alegria de Palhaço afundou em tristeza movediça de menino. Tiveram que chamar palhaços para alegrar Palhaço.
O pai teve a idéia de dar sustos no menino. Talvez ele abrisse a boca num grito. Largou cobra e bichos peçonhentos no quarto. O menino nem se mexia e os bichos guardaram distância dele. De noite, o pai vestiu um lençol branco melado de uma substância meio fosforecente, entrou no quarto fazendo vogais, mas desde quando fantasma entra pela porta?
Tentaram de tudo, medicina, teologia, hipnotismo, mas a semana só agravou. Os olhinhos já nem visitavam os olhos de quem o chamava. Cheiro de comida gostosa não passava mais pelo buraco da fechadura. Trancou de vez o rostinho e engoliu a chave. Silêncio tem gosto de quê? Sorrir é só uma questão de dentes, não de alegria.
E os pais enrolaram-se um no outro, caramujos decidindo. Trancariam a porta do quartinho e viveriam feito normais, embora órfãos de filho.
Mês, mês, mêses. Até que uma coragem resolveu abrir a portinha. Prendeu-se a respiração. Feche os olhos, senhora mãe.
Não havia o que temer de uma estrutura óssea imóvel estirada na cama. Porém, a caveirinha não fixava como de praxe o sorriso irônico de quem já conta vantagem sobre os vivos, pois para isso lhe faltava todos os dentes. Nem um dentinho... Uma caveira sem dentes é a coisa mais triste de que se pode ter notícia.


sábado, 30 de agosto de 2008

Soneto do amor circense

O peso de um amor são toneladas
A altura de um amor é astronômica
A máscara do clown é muito cômica
Que até o mais sisudo dá risadas

Os líquidos do amor se dão aos litros
As músicas se escutam a quilômetros
As febres são mentira pr’os termômetros
Faquíres, por amor, pisam em vidros

Crianças não gargalham só por regra
Palhaço que não tomba não alegra
No circo o que bocabre é a mágica!

Ninguém quer ver a vida tão macabra
Por mais que seja falso o abracadabra
A máscara do amor é muito trágica.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Lírico

Há no meu coração tantas badernas...
Se a tristeza arrasta os móveis pra lá
A alegria os traz de volta pra Cá
Que adora quando Lê palavras ternas.
O amor sobressaltou-se do sofá
Estava cochilando e agora está
Pondo em minha boca juras eternas.

À mulher que as ouvir
Assim, bem de pertinho
Eu as canto baixinho
Pra fazê-la dormir

E enquanto ela dorme
Sonhando comigo
Eu corro um perigo
Um perigo enorme

Um medo de perdê-la
A noite me sugere
Porém, a boa estrela
Me diz: - Desconsidere...

Mas ô cabeça burra
Tão calva de esperança
Se a tristeza me alcança
Saudade vem e esmurra

Porém, psiu... Ela suspira...
Toda maldade se afasta
De um lado a outro se vira
Observo-a feito cineasta

A noite, longa-metragem
Chega ao fim, meu bem desperta
Com ela, minha coragem
Eu a beijo, ela me aperta

Eis então o gran finale
Tela toda em branco-e-preto
Enquanto digo: - Prometo...
Ela com um beijo me cale.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Recado ao credor

É teu dever me cobrar.
O meu, dever.

Proezas

Ah, essas baleias
estiradas nas sarjetas da praia
bêbadas de mar...

Duas borboletas
enroscadas nos cabelos da árvore
embriagadas de vento
claclapam as asas.

Tinha veneno
a flor violentada.
O bicho extremungindo-se
cai em Z.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Relógio em prosa

Pronto! o segundo subindescendo as escadas que se avizinham em círculo infatigavelmente, a hora descansa, lerda preguiçosa, num sessenta-passos de minuto. A saber, basta um segundo e... Pronto! o segundo subindescendo as escadas que se avizinham em círculo...

sábado, 23 de agosto de 2008

Sinal dos tempos

A velhice é um domingo a mais.

Bares nossos de cada noite

Primeiro molha-se o bico
Na alva espuma que antecede
O ouro, e o ouro faz-me rico
A tristeza se despede

Esvazia-se o meu copo
Um companheiro me indaga
"Topas outra?" Claro, topo
Mas, ó, você é quem paga...

O boteco está bem cheio
Por mais que o garçom se esforce
Drible, tente pelo meio
Não dá; mas a gente torce

E ele finta um, dois, três
Todo mundo vibra, aplaude
E enfim traz ao bom freguês
Cinco garrafas, num balde

E a gente, então, comemora
Bate os copos, bate papo
Um ri da vida, o outro chora
Faz de lenço o guardanapo

Alguém propõe um batuque
Batendo só no caixote
Quando se vê (com que truque!?)
Surgiu até um fagote

Pandeiro, flauta, viola
Um instrumento por metro
Quadrado... Um flautista sola
A melodia, eu a letro

O bar inteiro descobre
Que a alegria vale muito
Mesmo a gente sendo pobre
A arte é um dom gratuito

Último gole, me concentro
Coração abre uma brecha
Tristeza põe-se pra dentro
Vou pra casa, o bar se fecha.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Chiclete

Amor eu cato do chão
ponho na boca
guardo no bolso
uso depois
ou cuspo fora.

Amor se eu não cato do chão
gruda na sola.

Já sigo

Nunca é o ainda não sido
Impossível é o já ontem
descido
aqui-jaz-às covas

Ontem é nunca mais
Um nunca já sido
Um sempre jazido

Quantos silêncios forem precisos

Para Marili de Carvalho

I

É uma tardezinha costumeira
Quando a sala se fecha repleta
E o público em atitude inquieta
Burburinha seus alaridos de feira

Na turba há um avô e sua neta
Impaciente, põe-se a encrenqueira
A tremer cavalgando na estribeira
Imaginária de uma mulinha seleta

Que sabe ela dos dramas e comédias?
Se deveria saber, de tanto ou muito
Esperar que o saiba, tomou as rédeas

E seguem, ela e a mulinha aos coices
Enquanto o seu avô num riso fortuito
Tenta esquecer da morte e suas foices...

II

Ora, nossa peça teatral pousando justa ou indireta
Sobre o tema morte, toda assim ou quase inteira
O avozinho se contorce ao vê-la qual enfermeira
Arrancando da vida as dores e nós em fria coleta

A morte não mais com aquela triste canseira
Na face. Negra não, mas de branco tão completa
Com uma injeção brincando de espeta-espeta
A neta (a que não sabe) ri-se da brincadeira

A morte assim toda de branco faz mais medo
O avô espia no espelho e se entreolha espantadiço
Enquanto a criança o caçoa; ainda lhe é cedo

Que sabe ela da vida ou deste outro assunto
O que todos evitam pronunciar? Não sabe disso
E de tanto esperar a saber, logo virava defunto...

III

O Silêncio reservou uma cadeira
Sobretudo sua cadeira predileta
Entre bocas sua opinião secreta
Não diz beleza ou quanta asneira

Poderia. Silenciosa ou discreta
Não diz quanto ouvido queira
Sua prosa Pessoenta ou Caeira
Diz nada e tudo ou sabe o poeta

Até as cadeiras resmungam
E os mosquitinhos estridentes
Povoam de reclamações a sala

Assim, até os anjos comungam
E os demônios e seus tridentes
Mas o Silêncio, único que cala...

IV

Pois bem, tens o direito de ficar quieta
Bem sabes que eu de nenhuma maneira
Violentá-la-ia. Por malgrado ou lisonjeira
Considero entre tantas ações a mais correta

Mas sabes, quem cala ou se esgueira
E quem a vê apenas tenta ou interpreta
O que sentes, ou então o silêncio decreta
A morte... Senão, haja nenhuma barreira

Psiu! Aproveitemos minuto a minuto
Entre tantas, esta hora é apenas essa
Logo tombo e tu ficas assim, de luto

Fale quanto puderes, suba ao palco
Logo tombo e não te ouço, sem pressa
Deitado na eternidade de um catafalco

Saramar

– Entra, meu bem, estando a porta aberta, sem cerimônia...
A noite não coube luz no quarto, mas deixei a meio aberto a porta, sabe... A cama não cabe amar sozinho. Não tive, para ligar o abajur, coragem, já tive outrora; e nem quis incomodar amigos, discar os números, pedir emprestado
– Tem coragem aí sobrando?
E ouvir nãos, quem sabe até uns xingamentos
– Isso é hora de ligar seu filho daquela?
Enfim, soube deter-me entre os lençóis e a plena imobilidade do corpo. Mas tive o cuidado de deixar a porta meio aberta.
O jantar sobrou o silêncio. Feio falar de boca cheia?
A gente quando nem se olha, eu nunca gostei dessa situação, parece a vida se ausentou, parece nem amor. Eu nem sei porque e se brigamos, mas sei você dorme no quarto ao lado, fato esse, por demais contrário ao costume dos casais, que, desde tempos, tornou-se um fator comum e imprescindível à vida dos que se pretendem amar: dormir juntinho, ladalado.
A noite, eu sozinho, produz a lembrança, antes que gire o mundo e sol bata o cartão de ponto, de como felizes os dois namorados, cheios de nenhuma preocupação, já um dia foram, sem mais cansaços extras, além dos que naturalmente da ocupação profissional decorrem. Lá, um simples estalar de lábios era menos que uma obrigação a mais a fazer.
Como viemos dar nessa situação, tenho nem coragem ou força para lembrar, mas tive a excentricidade de, deixando meio aberta a porta, vasculhar os porões da memória, surpreendendo-me ao topar o dia que nos conhecemos. Eu ia em busca da outra, sem saber você é a única mulher que cabe justinho em mim, e você, por pouco não veio. Tinha algumas restrições com a aparência, coisa de mulher! Logo a minha voz se ajeitou na sua, amalgamamos idéias, eu te dei um livro, te levei para casa, errei o caminho de volta, me perdi, fui me encontrar na sua boca, você deixou, eu fui ficando. Seguindo o rumo lógico das coisas, se é que as coisas possuem algum, houve casamento.
A gente quando nem se fala, você chegou mais cedo do trabalho, é um mais triste ser que filme de Chaplin, você entra, não nos conhecemos, eu monto no rosto as peças daquela fisionomia, parece tudo vai caindo, a boca enverga, chapéu escorrega, com sorte, uma lágrima possa, também caindo, comovê-la.
Tinha, antes de você chegar, ido ao mercadinho, sei você gosta pêssego em caldas, comprei, passei no florista da esquina, pude apenas margaridas, sobrou centavos, guardei, deixei a comida pronta, tomei banho, senti receio. Você chegou, cinema mudo, sentiu cheiro da comida, não moveu um músculo da face, nem articulou palavra, comeu, sequer reclamou do tempero
– Tá faltando sal na comida!
Quanto mais elogiar...
Daí, à tentativa derradeira apelei, quase que simultaneamente, trouxe-lhe o prato cheio de pêssegos submersos, já os tinha preparado, e encostando as flores na mesa, sentei, dei um sorriso sem dentes, esperei, teu olhar doeu. A noite não soube perdão, retirou-se, comi os pêssegos, cheirei as flores, reguei-as. Procurei nossos filhos, já estão crescidos, não carecem carícias, inúteis as minhas mãos, cada um mora um amor, restou deitar a cama, a porta meio aberta...
Já andei por aí, visitando jardins noturnos, interrompendo o alheio sono e tranqüilo com meu canto de desespero, quando, em situações análogas, porém não tão sofríveis, brigamos, às vezes até sem motivo aparente, coisas de casal. Já andei poemas, canções, mas o amor encontrou cansaço, nunca fiquei parado, imóvel quanto agora.
Mas a noite é possível luz! Ouço o interruptor do outro quarto, acho você desliza pelo carpete
– Entra, meu bem, estando a porta aberta, sem cerimônia!
Você atende, sem saber que me obedece, empurra de leve a porta meio aberta, não quer que eu perceba, correspondo, finjo não te saber, você vem, escorrega em meus lençóis, se ajusta na cama, acomoda em mim os seus braços, sorrio, falo nada, o amor não cabe palavra.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ozônio

Eu olhava a goteira e gargalhava:
– Teto furado!

Minha mãe imitava a goteira:
– Ai, pobreza...

Meu pai punha balde com panos dentro:
– Embalde, mas...

Minha irmã subia no telhado preocupada com o céu
que tem mais furos que o teto de casa.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Origami

Sushi é peixe com olho puxado. Nunca viu olhinho dele "assiím" no meio de arroz e algas?
Japoneses os meus bisavós. Avós os meus japoneses. E brasileira – meus pais – com japonês: acabei mestiço.
Rezei muita fé pra não puxar meu pai e olho de meu pai não puxar o meu. Até arregalava os olhos. Mas ele persuadia.
– Filho, quanto maior o olho, menor a paisagem.
Só maiorzinho fui entender. Primeira vez que fui à cidade grande, Ésse-Pê. Olhei cima de tudo, prédios todos muito altos, girafastados do chão, com que desespero agarravam o céu, literalmente arranhavam-no. Aquela predaiada toda sentada no lugar de senhoras árvores. Olho grande foi quem mandou fazer, gordôlhos... Olho grandemais minimumifica a paisagem.
– Uai, filho! Voltou? Por caus' de quê?
– Mas não é volta, ô pai. Novos, os olhos vêem o lugar pela primeira vez.
Com que sorriso reparou nos dois sinais-de-menos em lugar de meus arregalados.
– Filho, quanto menor o olho, maior o sorriso, vê?
E o sorriso dele grudou na minha memória. Desde então, forcei mão na enxada para ajudá-lo. Apertava os olhos com toda a força só para ver o sorriso dele maior!
Mas teve o dia em que sua boca sublinhou a tristeza dos olhos. Abriu com a dele a minha destra para logo fechá-la com a canhota. Pedaço de papel era passagem de avião.
– Amanhã cedo viajamos.
Ninguém perguntou nada, pressentimos.
O Japão em ideogramas era muito mais bonito do que qualquer tradução feita em português. Aquela casinha onde moravam meus avós, o que significava em palavras? Lá aprendi que cada palavra é uma casinha onde moram muitos sentidos.
Ao tirar os sapatos, conheci meus pés, muito prazer! nunca mais calcei-os.
Meu avô, ancião, ansiava. Pelo quê? Fez gesto bruto pras mulheres. Quando elas saíram, dobrou-se todo de dor. Tsuru... Só os homens, tios, meu pai e eu, redor da cama. Olhou pra mim e resmungou. Meu pai traduziu.
– Saquê.
Mulher tem ciúmes da bebida. Avó me viu sair da cozinha com a pinga, resmungou, mas ninguém traduziu.
Avô deu o primeiro gole com a última boca. Resmungou para meu pai cuja obediência abriu a janela. Para a alma dele sair? Avôo... Goteira nos olhos da gente. Encheu-se baldes vida afora.



(Inspirado por e dedicado a Renato Murakami)

sábado, 16 de agosto de 2008

Ele que diga...

Quem me contou foi meu avô. Que no cachorro ninguém botava nome. O descaso. Chamem-no só Cachorro, assim como Gato ao gato. Mas isso não pode ser, Chiquinho, seus 9 anos não admitem. O absurdo. Um anonimato sem cachorro.
Mas visita chega, quer passar mão no cachorro. Mas não é lindo o cão? Os habituais XÔ-CACHORRO! DESCE-JÁ-DAÍ! da boca dos pais efervescem pirlimpimpamente junto da saliva. Visita quer saber o nome. Mudez não é nome. Chiquinho é o dono, deve saber o nome, Chiquinho?
– Ele que diga.
O escândalo. E o cão falava? Chiquinho brincalhão, Chiquinho fala já o nome do cão:
– Ele que diga, ué!?!
Chiquinho de repente virava Francisco Pereira da Silva Jr.
– Francisco, olha a boca!
Chiquinho vira-se pro espelho, olha a própria boca:
– Linda, não?
Chiquinho pro quarto. Rijas as nádegas suportam palmadas de pai. Pomadas de mãe, depois, afrouxam-nas. Pais explicam à visita, diabruras do menino, mil desculpas. Visita se ri, mas pais não foram criança? Mudez parece que não lembram.
Visita tem que ir embora, do contrário, deixa de ser visita.
Daqui uma semana, visita baterá na porta. Tem que se dar jeito em menino. Pois, tira-se diversão dele. Acha-se nome pro cão. Pronto. Aí, Chico pegou duas raivas.
Visita veio. Visita tem que perguntar:
– Chiquinho, e o cão, já tem nome?
– Ele que diga.
– Elequediga? Que original! Mas ele gosta?
– Nunca reclamou.
– Elequediga, vem cá!
E o cão veio. Visita deu o veredito. Todos se maravilharam! Pronunciaram em côro:
– ELEQUEDIGA!...
Voz de criança igual o silêncio?

A morte da intenção

A manhã me chamou hoje cedo. Enquanto o sol se costurava aos retalhos da paisagem, escapando quase ou tentando, da noite, a manhã pairava sobre o meu leito, insistentemente chamando-me.
Manhã mais mal educada! Enquanto chamava, cuspia da nuvem de sua boca palavras molhadas e torrentes, que não cessavam de cair. Cansado de sentir-se como terra debaixo de chuva, porque terra debaixo de chuva vira lama, resolveu levantar, meu corpo. Levantou-se só, eu mesmo continuasse dormindo, jogado em algum lugar da cabeça.
Enquanto os olhos do corpo, tentando se abrir, rangiam como engrenagem enferrujada, os pés o corpo levaram até o banheiro. Lá, as mãos cumprimentaram a torneira de prata num gesto talvez cordial e essa, agraciada, ofereceu tanto líquido ou qualquer substância oleosa que as mãos, como conchas, não sopitaram de derramar sobre as pálpebras, que pouco a pouco, deixavam de resmungar e se abriam para todas as imagens que quisessem entrar na sala bagunçada de meus pensamentos.
Enquanto meus pés brincavam com o chão, minhas mãos abriam a janela. A paisagem estava riscada de uma chuva miúda e o sol, com medo de se molhar, escondeu-se atrás de uma nuvem rabugenta.
Aos poucos, as imagens entravam na porta de meus olhos. A terra escorregava do barranco e vinha desembocar no bueiro de meus olhos. Os guarda-chuvas, como estandartes negros eriçados, escondiam a face dos seres que caminhavam até meus olhos. Os carros estridentes, que vinham da avenida principal, também adentravam o túnel de meus olhos: as buzinas gritando invadindo a sala de meus pensamentos, acordei.
A partir daí, com os pensamentos despertos, passei a controlar o corpo, dirigindo-o até a porta principal. As paredes brancas e simpáticas me acompanhando. Falantes, contavam histórias de quantas tintas e cimentos quantos... Quantas aranhas, lagartixas passearam pelas plagas de suas peles... Quantas tantas, e eu me sentia como “quem nem vivi ainda”! Nem bem terminavam de me contar seus “causos”, eu diante da porta.
Abri, e despedindo-me das tagarelas, fixei meus olhos no chão fixo. Sobre ele o jornal do dia, que dia? não sei. Sem demora, pus-me a correr até a sala, sentar-me na cadeira preferida, iniciar minha leitura.
Uma matéria de proporção ínfima, situada na esquina inferior do jornal, ao lado esquerdo, chamou atenção.
Uma foto meio sombria antecedia um pequeno texto explicativo que dizia: - Na noite de ontem, precisamente às dez e tantas, um indivíduo identificado somente como Intenção caminhava pelos morros da Alvinha, com uma sacola cheia de frutos para alguém receber, quando, segundo testemunhas que acompanhavam às aurículas os passos de Intenção, ouviu-se um estrondo, precedido de um longo silêncio. Distraído, Intenção não viu que havia um abismo que separava o morro onde ele estava, do que ele desejava chegar...
A foto mostrava Intenção estatelado no chão, sem vida, sem alma, sem intenção mesmo de se levantar dali. E eu que não queria me levantar cedo, não possuindo traje preto para o luto, cobri-me de minha negra sombra e saí por aí, confundindo minhas lágrimas com a chuva que a manhã cuspia.


Meteorologia olímpica

Enfim, após uma semana de chuva para olhos Brasileiros, sai o sol! Para os próximos dias a previsão é de tempo nublado, com possibilidade remota de sol no fim da tarde (espero que não tão tarde a ponto das Olimpíadas já terem chegado ao fim...).
Chamada de Pódium nas Olímpiadas a temperatua oscila entre: máxima de 3 degraus, próprios aos pés-quentes; e mínima de 1 degrau que é próximo de zero degraus, ambos feitos sob medida aos pés-frios.

E para demonstrar hoje a atualidade dos textos bíblicos parafraseio essas palavras proféticas de Jesus ditas há mais de 2000 anos atrás: - Dai a César o que é de César...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Placa-de-bronze

Acabaram com o Ouro do Brasil. Dizem que a culpa foi da Bandeirantes, ops, digo, dos Bandeirantes. Ouro nem sempre foi escasso por aqui, mas se dava-bunda ou abundava, os estrangeiros sempre cuidavam de rapá-lo todo. Mas nem Prata?
- Olha, xeu moxo, a coija tá preta e nada é de graxa... - diz-me um carioca.
Então, o que sobra? Brasileiro vai à China como quem vai à praia, só pra pegar um bronze. E volta contente.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Destinos (À minha maneira)

Um guarda-chuva nunca guarda a chuva
pra que possamos tomá-la depois?

De quem a chuva guarda tanta mágoa?
Como arranjar-lhe um pára-quedas?

E o que acontece, se após toda essa chuva
o rio, ah, o rio, morrer afogado?

Então, afogado, bóia o corpo do rio?
E terão fome ou sede os urubus?

Comete homicídio o copo que nos mata a sede?
Como ele nunca mata a própria sede?

E se a própria sede, num dia de calor sentir-se
concederão-lhe o direito da eutanásia?


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Confidencial

A Verba, ex-mulher do Verbo, já não se conjuga com ninguém há muito tempo, desde que largou-se do antigo cônjuge. Motivos do desquite? Alegação: sofria muita pressão psicológica por parte do ex-marido que a toda hora implicava ação, ação, ação, coisa que ela, um tanto substantiva, esmerava-se em evitar. A Verba é daquelas mulheres que passeiam soltas por aí, provocando muitos desejos, daquelas cuja simples passagem faz toda e qualquer OBRA-DE-CONSTRUÇÃO parar inteira (por tempo indeterminado) só para vê-la passar...

Política

Quando ele se inventou todos convenceram-se de que era mesmo a solução. Mas o ÉRRE veio na frente do Ê e em vez de PERFEITO ficou sendo PREFEITO mesmo. Tô pra nascer um prefeito que não R antes do Ê, leitor...

Prefeito e Perfeito? Par imperfeito ou ím(par)perfeito. Par ou ímpar? Você primeiro...

Tá bom, vai, ninguém é perfeito. Mas também, ninguém é prefeito, a não ser o próprio. Ou: ninguém é prefeito pra não ser opróbrio.

Ops... Retifico-me. Escrevi que tô pra nascer um prefeito que não R antes do Ê... Sim, tô pra nascer mesmo, mas devo emendar que o pecado original não é do prefeito a quem o eleitor engole e depois arrota. Então, a culpa é de quem vota?

Só votar em branco pode ser preconceito racial. Votar nulo é o mesmo que votar nolula ou morar em Honolulu. A solução seria não votar. Mas isso não seria voltar à estaca-zero? Mas não é melhor voltar à estaca-zero do que já ter perdido a conta das estacas? Mas afinal das contas, o que se pode contar, além das contas? que estaca por estaca, nunca estacam? Outra conta?!? Conta outra.

O povo é um animal grande com muitas tentáculos, mas tão mole que não faz, nada... Ou será o polvo? Dá tudo na mesma. Enfim, sentindo-se meio diferente do polvo, apesar de ser tudo a mesma geléia, saiu-se lula a subir, subir, o polvo cada vez mais lá embaixo, quando viu, estava fora d'água debatendo-se no prato de algum desses estrangeiros chiques que por fineza de goela não pode engolir sapos nem lulas, mas como mastiga...

E por falar em chique, o porco, dentre os animais, faz questão de ser o mais chique. Daí, a origem da palavra CHIQUEIRO!

sábado, 9 de agosto de 2008

Divisão amiga

Ouve quatro passos (. . . .)
Mas vê só dois seres (??)
Uma amizade (!)

Pois são quatro pernas
Que levam dois corpos
E um coração.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vendedor

Vou repetir vez uma só
Tem olho pra mim?
Loja vende, me disseram
E a sua me apontaram

Confirma, diz coisa
Bonito balcão, por sinal
Diz preço, diz tem ou não

Silêncio? me sobra
Obrigado muito
Por demais valeu

Vendedor... Vendedor...
Atenção o senhor me dê!
O bar... vim de lá
É o que dá do não-deu
Passei a noite passar

Oi? Escutei palavra?
Foi impressão, foi
Embora não bocabra
Que nariz o senhor tem!

Vou repetir vez mais essa
Tem olho pra mim?
Explicar melhor tentarei
Sabe uma coisa tipo
De jeito qual esse
Assim redondo e molha
E o mais importante
Me olha me olha me olha
Qualquer serve, forma
Cor, a que for, já deu
A pois! Tem desses pra mim?

Vendedor... Vendedor...
Pensa, eu pago em dobro
Adiantado, precisar
De urgência que é o caso
Vai lá dentro e vê, senhor
No estoque, achar deve...

Agora o senhor me ature
A chover lá fora começou

É verdade, não minto
Preciso olho que me olhe
De jeito outro q'esse seu aí
A minha vida eu te conto
Porém, antes, aceito café
Demais obrigado, senhor
Embora não bocabra
Que modos o senhor tem!
Inclusive, eu vinha contando
No em-como vim pra cá
Isso, hora ou duas atrás
Não me lembro por exato
Alguns litros atrás

Belo telefone esse o teu
Mas o senhor pra quem liga?

Vendedor... Vendedor...
Não se cale tanto muito
Aliás, dar as costas assim
Quando estou por falar
É o dos gestos mais baixo
Mas como educação tive
Mãe me a deu e pai
Espero completar a ligação

Agora sim! Agora sim!
Desculpe o mau-hálito
É que bar, vim de lá
E já que ficamos íntimos
Confessar... É de amor coisa
Bem o senhor deve saber
Fez desvio o olho daquela
Paisagens olha ou sabe lá

Por Deus, vez-não-mais
Tem olho pra mim?
Estou a dar com nervos
A chamar a polícia, quase

Ouvi bem? Já chamou?
Vendedor... Vendedor...
Que voz o senhor tem!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Soneto de la soledad

Hiere mis ojos la bela paisaje
Cuando la mañana salta del parto
De la noche, invadiendo nuestro cuarto
Poco a poco, como una flor salvaje

La noche, estática como un lagarto
Ya muerto, espesa como una engranaje
Que ya no puede se movir, sin coraje
Esta noche, muerta en su beso harto

Los pájaros hieren mi libertad
Tan muerta en su cama, muerta en sus brazos
Entretanto, escribo por su silencio

Al paso que duermes, mi soledad
Manando de la tierra de sus trazos
Los pájaros ronpem todo el vacío...



* Na época em que convivi com Neruda, falávamos, ele e eu, do amor, cada qual na sua língua de origem. Não nos entendíamos, mas não por barreiras idiomáticas, e sim porque, quando se trata do amor, nada se deve entender mesmo. Deixei sua ilha, voltei pra casa, mas dentro de mim ficou um espanhol tagarela, sósia invertida de Pablo, cujas palabras não me largaram de todo enquanto não as tombei nesse soneto, que ora dedico em sua homenagem. Qualquer erro ou incidente no que se refere à estrutura gramatical, morfológica ou ortográfica será mera ignorância.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Prosa profunda

Amigos tenho só dois: um que nunca tive. Outro que jamais terei. O restante faz parte de mim.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Haicai

Ai! cai uma folha
Apressa-se a mão do vento
Tarde demais. Chão.

Óculos

Um-olho é vizinho de outrolho
Vez-quando um ao outro provoca
Mas se um deles chama pra briga
Outrolho não sai mais da toca

Outrolho e um-olho são gêmeos
Um-olho de outrolho é siamês
Mas se outrolho apronta bobagem
Um nunca soube o que o outro fez

Jamais se encararam de frente
Se um Flórida, o outro Califórnia
O que pensaria um do outro?
Que tom de azul... Que linda córnea...

Outrolho é vizinho de um-olho
E todo vizinho se odeia
Pois se a casa de um tem goteira
De alegria a do outro incendeia

Nada mais triste que um caolho
No sertão de seu olho acidro
Quando quebra a cara no amor
Quebra também o olho de vidro.

Serão lágrimas esses cacos?

sábado, 2 de agosto de 2008

Trapézio

Esbaforido, vinha o Tempo a mais da velocidade permitida. Tinha-o a pressa, bem como um dono tem ao seu cão, por conta de um encontro previamente marcado a línguas precipitadas.
Quando viu, pisava já em cima da hora, como quem pisa moles merdas. Espantou-se, tirou sapatos e espanou-se dali feito sujeira, arrancando numa carreira desvairada.
Pronunciou táxi, em voz alta, mas, o surdo automóvel.
Respirou, pirou. Ar não veio, puxou, puxava, puxou, não veio. De que jeito... Foi ver, pulmões não tinha. No lugar dos órgãos, um par de olhos assustados. Os meus. Continuei correndo, coordenadamente me apalpando a fim de certificar-me de cada membro, sobretudo os pulmões, cuja bronquite crônica punha em placa os letreiros parada obrigatória.
Após escandaloso acesso de tosse, espalmei contra um poste, que se encontrava ali parado, justo naquele instante. Espumei de raiva ao comparar a sua com a minha imobilidade, compreendi os cães. De raiva, hidratei-o todo, urinando amarelos. Toda cor amarela esgotou-se da palheta do mundo naquela minha mijada.
Pessoas foram surgindo, eu, já não mais Adão, faltando-me todas as costelas. Com a mão tapavam a boca, escandalizadas, ao que eu imitava, por minha vez, procedendo num bocejo.
Do meu pijama listrado fizeram pouco. Pelo que, reparando melhor, aquela indumentária já não me caía tão bem. Dentes de criança rasgando embalagem de chocolate, desvesti-me. Compreendi os cães.
Lembrei que tinha pressa, só que agora, nu, corria com mais facilidade. Parei diante de uma banca-de-jornal para discutir política e xingar a mãe do prefeito por ter abrido as pernas. O jornaleiro aconselhou-me cobrir as partes, após o que, cedeu-me um exemplar de sua revista pornográfica mais depravada, com o que cobri minha intimidade.
Pessoas ao meu redor superpopulavam, qualquer aglomeração é chinesa. A xinguelingues me xingavam, eu retrucava com minha bilíngüe estilíngua. Foram coreograficamente abrindo espaços, um tentou me agarrar pelo pescoço, mas meus cabelos de arame farpado. Dois, três, cinco homens juntos, nunca foi fácil pegar um homem nu, ainda por cima, suado. Percebendo que levaria a pior por estar numericamente em desvantagem, tentei explicar-lhes diplomaticamente quanto ao meu atraso, Deus absolva a minha nudez! Daí, três homens, de aspecto familiar, vestidos de branco, um deles espetou-me com o que sei lá mas doeu, os outros dois, acho que condoídos de minha nudez, vestiram-me uma camisa que por muito justa não ser do meu tamanho, imobilizou-me o corpo todo feito uma serpente cujo corpo em espiral enrola de todo a sua presa. No lugar do meu par de olhos assustados era como se houvesse dois relógios dessincronizados, um dando 10 e 54, o outro dando uma e cinco. O Tempo estava definitivamente atrasado.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Manicômico

Por conta de uma contenda acirradíssima entre o bom e o mau humor em que despontávamos corajosamente eu e o distinto poeta Fábio Roberto, a favor, claro, do bom-humor, sobressaem-se dois poemas, os quais, aqui transcrevo, com os meus dentes "sujos" de sorriso.

A véia cômica

Achou-se derramado na sarjeta
O bom humor de algum pobre gaiato
Quem encontrou nem quer ganhar gorjeta
Só quer felicidade sem hiato

Terá sido a alegria posta fora?
Terá sido perdida numa farra?
Será que foi por causa da demora
De alguém em se livrar de dura barra?

Se bocas orgulhosas mostram os dentes
E os risos se transformam em gargalhadas
Serão as faces sérias de doentes
Sem espírito, de vidas empalhadas?

A graça é esquecida em abandono
Por gente que acredita em um ditado:
"Do próprio cú o bêbado não é dono"
Não pode nem beber esse coitado

Mas quem sabe até seja apenas
A diversão atravessada na goela
Brincadeira então não o salva, nem novenas
Não ri por sua alma estar banguela

Fábio Roberto

Capracolá

"Não ri por sua alma estar banguela" – Fábio Roberto

Tristeza foi ao dentista
Tirar do sorriso a cárie
O odonto lhe deu a pista:
– Vês na alegria a barbárie?
Vá se tratar no oculista.

E lá chegando, no oftalmo
Fez uns exames, em série
E o oculista, muito calmo:
– Vês na alegria a intempérie?
Vá com os padres ler salmo.

Loucomovendo-se à igreja
Tomou a benção tão brabo
Que o padre só lhe boceja:
– Vês na alegria o diabo?
Vá num bar tomar cerveja...

Leandro Henrique

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Passeio romântico

Pusemos fogo em nosso barco
E nenhum romance ousaria tanto
Velejar num barco à luz de velas...

Romance

A cada beijo teu
Nos meus os teus lábios
Tocam-se as palavras
Nuas como o vento
A despistar a voz
Fazes de seu ninho
O meu silêncio
Brincam com o escuro
Os nossos olhos
Repousas aguamente
Em mim a tua alma

A cada beijo teu
Por nós os milênios
Passam distraídos
Cegos como o vento
A se perder de si
Nem fazemos conta
Que as cidades
Somem pelos vãos
Da eternidade
Repousas sonhamente
Em mim a tua alma

Nem a campainha
Pudemos atender
Alguém tentou nos avisar
Mas o nosso amor foi
Do que os curiosos
Bem menos atento
A vida acabou lá fora
E toda essa gente
Que tinha a pressa
Passou os milênios
Morrendo demais

Nem telefonemas
Pudemos atender
Alguém tentou nos pôr a par
Mas o nosso amor
Quis do mundo saber
Nenhuma notícia

Quanta coisa aconteceu
A cada beijo teu
Do caos surgiram
Muitas gerações
Aos gritos passando
Chamando, clamando
Tentando morrer a gente
A gente enfeitando
Fingindo surdezes
Amando absurdos
Molhando palavras

Por todo esse tempo
Asseguradas
Uma na outra
As nossas almas
Suspensas
Na altura dos risos
Lá embaixo os milênios
Pisando o seu silêncio
Acima de tudo
O nosso amor

Quanta coisa aconteceu
A cada beijo teu!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Graves manhãs

O mais triste das manhãs são os comicídios.

É preferível passar por qualquer rua
menos movimentada e mal iluminada
com seus bandidos aos muros pendurados
do que por qualquer dessas manhãs.

Se puder escolher os perigos
passe por um tiroteio à tarde
ou por um assalto à noite
um espancamento a qualquer hora do dia
um atropelamento fantástico contando seis vítimas
menos o cachorro que teve toda a culpa
mas sobretudo
evite passar pelas manhãs.

Conheci muitas alegrias
que moravam naquele menino
(a tarde inteira com ele brincavam
correndo ladeiras abaixo a competir com o sol
de ver quem chega antes ao rodapé do mundo
para que na presença da noite, acendidas as gargalhadas
pernoitassem um sorriso fresco na sua boca)
e nunca mais voltaram
depois do enfrentamento súbito
com uma dessas graves manhãs
malditas comicidas.

Aliás,
esse hábito da gente inventar poemas
desviando outros assuntos
para enfeitar a nossa dor
a culpa deve ser mesmo dessas manhãs que sofremos
nossa alegria morta de sono.

Nota passageira

Falam de proibir o fumo em ambientes fechados.
Para mim, o pulmão é um ambiente fechado...

Onírico

Longe para mim não são essas duas horas de viagem entrepostas à minha e tua casa.
Nem esses quantos meses que obstam-me do bom futuro a visão.
Tampouco um século em cujas mãos alvoreceriam os meus cabelos antes noite.
De tudo isso não estamos longe.
Tua casa, meu futuro, nossa velhice, tudo isso é logo.
Longe para mim é um minuto atrás.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Morte no xadrez

No piso quadriculado
Preto brancopreto branco
A rainha ficou viúva
Um canibal comeu o rei

E quem a irá consolar
Se o bispo também morreu
Este, tinha nem esposa
Para chorar sua morte

Alguns peões-soldadinhos
Fugiram com os cavalos
Para longe e despencaram
No abismo do tabuleiro

Encurralada entre torres
Ela só espera que a mão
Que devorou seu marido
Tenha fome de sua dor

Mas a mão, farta, sem fome
Se esconde tímida ao bolso
A rainha, como um lixo
Que esqueceram de varrer

Anti-rugas

Não há fugas contra as rugas
Até que o contrário provem.
Só uma que de nada vale.
Anti-rugas: morrer jovem.


Soneto ao soneto

No teu corpo, Soneto, eu me debruço
Exausto como um velho que se entrega
Ao túmulo e, após tanta dor, sossega:
Alívio de copo d'água ao soluço...

Com artimanhas, Soneto, eu te aguço
Mas como a tal mulher que o beijo nega
Tu me escapas. Longe, diz: - Não me pega!
Angústia de última gota ao pinguço....

Um sempre querer-mais, tanto um como outro:
O velho, só um pouco mais de vida
O bêbado, um tanto mais de bebida

Em nossas lutas, Soneto, eu me encontro
E após nove sílabas, tu, com péssima
Aparência, enfim, me entregas a décima...

domingo, 27 de julho de 2008

A última risada

Uns tomam éter. Outros cocaína
Eu tomo alegria!

Manuel Bandeira

O mundo está em desengano.
Tristes as pessoas.
O desemprego está tão alto
que ao bater à minha porta
sorrateiramente vinha
mas de tão grande
bateu no cimo da porta
a sua testa.

O mundo fez guerra
e os sorrisos murcharam.
Bandeiras manchadas
de crianças trabalhando escravas
algumas magras alfinéticas
empunham armas pesadas.
Os adultos é que brincam de botões
esses é que brincam de verde
no perigoso jogo dos botões.

Assim o nosso mundo.
Mas hoje é sexta ou trégua para alguns.
Para outros não haverá sábado.
O pano branco se derramou
sobre esses que cabisbaixos
saem para dançar
para beber, para fumar
e serem fumados aos poucos
pela noite última.

Estão ansiosos, afoitos.
Estão tremelicando
querem logo dançar.
Há um rumor à solta
de que a morte vem chegando...
No céu voam bombas
e passarinhos alguns.

É preciso dançar antes
é preciso dançar logo.
Dizem que se chega a tal,
corpo não mexe mais.

Eu não bebo. Não fumo.
Também não sei dançar,
mas não parado fico.

É preciso se mexer! É preciso se mexer!

A música cavalga,
eu tremulo e finjo dançar,
ordinariamente ridículo,
desengonçadamente patético.

Se as pessoas eram,
tristes deixaram de ser.

Olham-me e riem gostosamente.
Estrebucham-se em gargalhadas.
Outros caçoam, mas não importa,
rir é preciso!

Amanhã ressurge a guerra.
Para uns não haverá sábado.
Não haverá bom dia mãe.
Talvez morram filhos
e boca não mexa mais.

No céu voam bombas
e passarinhos alguns.
É preciso se mexer antes,
mesmo não saibamos dançar.

É preciso se mexer! É preciso se mexer!

Importante é o som da risada!
Belo é o som da risada,
ainda que seja a última.

sábado, 26 de julho de 2008

Solidão

Um urubu apodrecido comendo os próprios restos.


quinta-feira, 24 de julho de 2008

Barrafim

Notas trauteiam
Peça por peça
Montadas a cavalo
Quem são?
Tu, na garupa
Upa, upa!
Eu, cordas tanjo
Rédeas seriam?

Assusta-se o cavalo
E após staccato
.
Empina-se
(Pausa)
Acidenta-se o nosso cavalo
Onde à frente ####### cercas de arame sustenido
A quaisquer notas desnaturariam
Nós, porém, bequadros
Já do solavanco havíamos saltado
Ufa, ufa!

O nosso cavalo, ferido
Os músculos em vibrato
Trêmulo, trota até o fim
Tu e eu, seguimos a pé
A pé-de-valsa
Até que os três
Mínima vontade de chegar ao fim
Ralentamos, ralentamos...
Peça por peça
Desmonta-se
Semibreve o amor
| Barrafim ||


Sono profundo

Se eu não voltar é porque me perdi em mim...

Anti-quedas

Contra a calvície: boné?
Pílulas? cremes? Esqueça...
O melhor, melhor mesmo é
Perder de vez a cabeça!

Haicai

Na calva da lua
Gruda a nuvem distraída
Que linda peruca!